nada do que eu digo ou escrevo é passível de fazer sentido.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Eventualidades III

Quanto mais escadas sumiam sob a figura perturbadora de Rabastan, mais minha mãe devorava-me com o olhar. Este suplicava uma ação benemérita de minha parte, algo que o trouxesse definitivamente para mim. Não, repetia em minha mente, não ia me dar ao desplante de ir contra a minha vontade. Eu nem conseguia esconder mais o marasmo por nosso possível noivado — que se dependesse de mamãe, seria ali e agora. Era um inferno. Encarei Wilkes por poucos segundos, sem me preocupar em desfazer o semblante insatisfeito. Ia continuar a comentar asnices — fazer-me de boba sempre me ajudava em situações como aquela —, mas nada pude fazer quando fitei o recém-chegado; seus cabelos demasiado escuros caindo-lhe à face quando abaixava um pouco a cabeça em cumprimento, a franja a descrever um arco incompleto sobre os olhos negros e cálidos, a boca rosada e ligeiramente saliente. Sua pele não era tão alva quanto a minha, embora continuasse pálido como nos livros do ultra-romantismo — uma contração involuntária em meu estômago. Ele era o meu boneco de cera moribundo, deitado em seu caixão no meio da igreja deserta, as velas ao seu redor. Vivaz, porém, em seus atos, trouxe-me à realidade quando se aproximou esbanjando certa simpatia. Contraditório — outra convulsão constada em meu estômago.
Dirigiu-se a Wilkes primeiramente, notando a presença de Lestrange em seguida. Cessaram os movimentos em meu sistema digestório, principiando falhar o respiratório e cardíaco. Eu já estava estressada o suficiente, Rosier se sentir ameaçado e não se aproximar de mim apenas piorava tudo. Então, ele me surpreendeu. Beijou-me o rosto após desejar-me boa noite intimamente com o meu apelido — utilizado apenas por Alecto, deixe-me frisar. De fato, seus lábios encostaram os cantos dos meus. Meus olhos se arregalaram e eu senti o rubor e torpor se apossar de mim. O que ele estava pensando? Não podia me tratar assim, como uma mera garota que ele se interessava por brincar. Entrementes, aqueles mínimos toques fizeram meus lábios ferverem — talvez minha boca tenha aderido permanentemente o vermelho do batom, o qual eu podia ver na boca dele um pouco rosado, ou imaginar ver. Eu ia me dirigir a Evan, dizer o quanto fora indelicado mas o perdoaria. Diria ainda que ele poderia conseguir mais do que isso, se quisesse. Tudo bem, eu não ia dizer isso, e sequer tive a oportunidade de falar qualquer coisa. Mamãe já estava me tomando pela mão, afastando-me dele.
— Comporte-se, senhor Rosier! — ela alterou o tom de voz, a fúria declarada em suas expressões fortes. Vi alguns fios de seu cabelo se desprenderem do elegante coque que havia feito, tamanha quantidade de xingamentos que guardava para si — Espero que seu — sua boa se curvou em um sorriso sarcástico e maldoso, fulminando o rapaz com o olhar — descuido não se repita. — era mais que um aviso ou uma ordem — Minha Megaira — corrigiu-o pelo uso de apelidos — não é para você. — terminou cortante e incisiva. Estava resoluta a me afastar de Rosier, carregando-me para perto da porta, onde papai ainda estava. Ele pouco importou para toda a situação, concentrando-se no senhor Wilkes. Revirei os olhos, deixando-os vagar para a figura elegante de Evan. Minha boca ainda fervia.

Eventualidades II

Meus olhos continuavam ávidos pela madeira lustrosa da escada, quando percebi um movimento perto de mim; o garoto Wilkes se aproximava. Já o vira tantas vezes, das quais jamais lhe dera atenção ou ele se permitiu conhecer, em pleno Salão Comunal de sua casa em Hogwarts. Observei minha mão se erguer sem ordem, sendo levada aos lábios dele que, após tocar-me, preencheu-se com um sorriso. Não me agradava tal liberdade, em especial, por um desconhecido. Porém, acostumada a atuar como boa donzela, retribui seu gesto, mostrando todos os dentes em um sorriso tão genuíno que ninguém desconfiaria do antigo desconforto. Este, aliás, expressou-se por minha falha — precisava controlar minha raiva como fazia com os demais sentimentos.
— Boa noite — levei meio segundo para lembrar o primeiro nome de Wilkes, afinal, não convivíamos tanto —, Ares. — por sorte, escutei várias vezes papai pronunciar aquele nome, porque o progenitor daquele em minha frente fazia grandes negócios com nossa família. Isto causava desentendimentos entre meu pai e eu, pois ele prezava amizades com influências certas. Ri-me disso, dando mais veracidade ao fato de agradar com a educação do jovem.
Observei o movimento de suas mãos ao bolso, mas seu próximo ato passou em branco frente aos meus olhos. Quando voltei a encarar seu rosto, lá estava o cigarro sendo tragado, seus traços de prazer por sentir a fumaça em seu pulmão. E aquele cheiro me deu água na boca. Elementos químicos mortais clamando por mim — meu coração pulsou mais forte pelo desejo. Meus lábios começaram a formigar de vontade de ter aquilo entre eles, aliviando-me do stress de ser futura noiva de alguém. Artérias, veias, vasos. Tudo reclamava o cigarro. Maldito vício. Maldito garoto; matava-me saber que não poderia me saciar enquanto meus pais estivessem presentes. Engoli todas aquelas emoções junto da saliva, mantendo-me imperturbável quanto ao sorriso. Continuava tão puramente verdadeira que me dava ânsia.
— Sim, é este nome mesmo. — minha voz era meiga, rouca como se já não a usasse. Estava preste a continuar a me socializar quando o vi. Neste momento, não contive nada; tudo se perdeu. A alegria, a cobiça, restando o stress. Eu deveria saber que ele viria logo — outro pulso forte em meu peito. Merda, começara. Eu devia estar lívida de raiva, frustração, agonia e receio. Limpei a garganta, retomando a atmosfera feliz que me munia outrora, mesmo falsa. Desta vez, porém, senti que minha máscara poderia ruir se não me concentrasse, e eu tinha de fazê-lo para o meu companheiro não reparar as repentinas mudanças em minha fisionomia. — Então... — quis retomar um assunto nunca principiado, recorrendo a todos os neurônios cabíveis para me ater ao teatro — ouvi Bellatrix certa vez dizer que você torcia por algum time... Cannons? — quis me dar um soco. Frivolidade como quadribol logo despertaria a desconfiança se ele fosse um bom observador, ou se estivesse me olhando — Acho Falcons bons. — pigarreei, lançando um olhar furtivo à escada. Ele descia despreocupado com um sorriso esquivo no rosto. Mais uma vez, o stress atingiu o apogeu — o que eu faria agora que Rabastan descia? Num outro olhar rápido, vi minha mãe encarando-nos, o brilho de fascínio lá. O medo bateu-me estampado em meu azul.

O que não devem querer as mulheres?

Destruam o seriado idiota da Globo! Não se trata mais sobre o que nós queremos, buscamos ou esperamos de pessoas que simplesmente não nos valorizam. Trata-se de seres humanos patéticos que apenas querem saciar suas necessidades sexuais, independente do histórico de amizade ou a quantidade de sentimento envolvida. Aliás, a fuga desses dois pontos principais que nós, mulheres, valorizamos é o que mais nos consterna. Afinal, nós sabemos o que os homens querem e eles também, mas continuamos loucas atrás de respostas plausíveis para suas canalhices e ignoradas. A verdade é que ninguém mais procura compreender o outro da forma como nós, as injustiçadas, procuramos. E por que isso? Porque somos estúpidas.

Infinitamente estúpidas. Fantasmas iludidos em busca de amor, o sentimento e, quem sabe, um pouquinho de contato físico. Talvez algo como um abraço — a demonstração mais simples e pura de afeto que existe. Quem sabe só um único olhar. Um olhar! E, enquanto iludidas esperamos pelo veredicto da sociedade, há um Romeu escondido entre linhas de mapas que se sente igual. Acreditamos que há, pois não nos resta outra esperança; e, enquanto isso, deixamos para trás as fibras de nossos corações com erratas que aparecem em nosso caminho.

“Você não é só mais uma”. Típica frase de quem diz que te valoriza e, no momento seguinte, faz a enorme merda de... Sei lá... Transar com outra? Beijar outra? Sorrir para outra? Desejar outras? O fato é: Sim, você realmente não é como as outras, querida. Você é aquela que ele cozinha, porque sabe que estará sempre ali, no cantinho do matinho da sala escura, esperando por seu retorno triunfal da noitada de quinta. Ou de sexta. Ou de sábado. Então, depois dessa declaração DIVA e das desculpas trocadas, sem contar as promessas renovadas, tentamos confiar novamente em nossas vãs idéias de “somos ótimos juntos”. Alô?! Diga-me: Você terá coragem mesmo de se entregar novamente? De dar a cara a tapa por uma pessoa que pode fazer tudo aquilo de novo e, talvez, nem se preocupar em contar por saber que vai te perder desta forma? Bem, julgue o tempo que for necessário e depois concorde comigo: NÃO.

Mas é aí que se encontra nosso erro. Terrível erro, o erro mais grave! O erro de pensar que não irá acontecer novamente. Porque sim, vai. E você esperará, dará a cara a tapa, tudo para descobrir que ele é mais um. PARABÉNS, VOCÊ FOI ENGANADA DE NOVO! Entregou seu coração ao primeiro que apareceu dizendo querer socorrê-lo, e foi isso o que aconteceu. E aí você sofre, implora misericórdia ao seu coração e promete a si mesma que nunca mais (nunca mais!) irá se apaixonar outra vez. Mas você se apaixona. E todos esses golpes no estômago são triplicados no coração. E você resolve construir uma barreira em volta do seu precioso, decide nunca mais deixar ninguém entrar ali e conhecer seus segredos e medos, porque o alguém que você ama não existe. Mas você ainda se ilude! Você ainda vê nele o sorriso que ilumina seu dia e as palavras que despertam as borboletas em seu estômago; porque você é assim, vê em um o que não deveria ver em todos, e o que na verdade não existe em nenhum. Lembra do Romeu, perdido no mapa? Esqueça-o. Feche seu coração aos amores, e ele se fechará às lágrimas. Nada te impede — afinal, não há coração nem mágoas em nossas necessidades fisiológicas.

Ademais, você sabe tão bem quanto eu que nada vai mudar. Ele vai continuar a não te ligar ou mandar mensagem off no MSN ou no celular, não vai mover uma palha para te ver no final do dia, tampouco vai dançar The Way You Look Tonight agarradinho com você. Não. O delicioso vai te deixar na mão todas as vezes, porque não tem razão para manter um relacionamento saudável com uma “oferecida”. E não digo isso por você ser uma piriga de verdade — bem, nunca se sabe —, meu bem, mas pelo fato de você sempre se doar por completo àquele ser miserável e manipulador. E não, não estou falando do maldito que roubou seu coração: é o BURRO do seu coração mesmo. É ele quem bate acelerado toda vez que o sorriso simétrico aparece, quem implora por mais um beijo fervoroso ao fim de uma noite intensa de carícias, quem decide ficar mais tempo só para agradar as reviravoltas do estômago, quem coordena todos os suores frios e risadas histéricas e pedidos velados. E aí está nosso grande vilão, mancomunado aos delírios de um garoto diferente, especial... Ideal . Cara, caia na real: o gatinho não está tão na sua assim a ponto de esforçar-se por você. Volte ao início desse parágrafo e leia a pequena listinha de coisas que ele NÃO vai fazer e... BEIJOS. Seja feliz.

Você vai desistir do seu amado Homem, com H maiúsculo e CAFAJESTE em caps lock. Você vai perceber como tudo nele que a fazia amá-lo, agora lhe dá nojo. Sim, nojo! Cada mania se tornou insuportável, e você não consegue nem ouvir aquele barulhinho da chave quando ele abre a porta, ou toque especial que você colocou no celular quando ele liga, quiçá a gargalhada que costumava ninar suas magníficas manhãs. Nojo. Nada mais do que isso. Nojo dele e seus atos reprováveis. Nojo de si e sua idiotice nata de mulher apaixonada. Nojo de tudo o que viveram juntos e — ele promete — ainda viverão — ou não. Aposte no não, aviso desde já. Mas sabe o que é o pior? Apesar de todo esse nojo, toda essa revolta contra si mesma e o mundo masculino, você ainda vai dar as chances pedidas. Você ainda vai conseguir se emburrecer ao ponto de confiar outra e outra e mais outra vez. O que você deve fazer? Preciso mesmo dizer?

Sim, minha querida comidinha, você deve desistir desse filho da puta. E já. Neste exato e cruel e crucial e infindável momento. Mande uma SMS com os dizeres: “Não te quero mais. Cansei. Tenha um ótimo dia. P.S.: Não, não me ligue ou me procure. É definitivo.” Neste momento ele VAI procurar, VAI chorar, VAI espernear, VAI jurar por Deus, pela terra, pelo céu e o mar. Mas você não vai voltar, compreendeu? É o fim, de verdade. Não tem mais cabimento você se enganar desta forma, não tem mais destreza de continuar na salinha de espera, não precisa mais se iludir. Se você teve força para voltar durante tanto tempo, tenha força de dizer basta! Oras, ele nunca vai de fato te querer como você o quer. Jamais passará pela cabeça dele se entregar como você se entrega. ELE É UM FILHO DA PUTA! É UM HOMEM , POR DEUS! Eu não preciso citar tudo o que isso significa e quantas lágrimas você derrama só por este motivo. Todas sabem que esta palavra e definição já dizem tudo o que desgostamos por si só. E é justificativa suficiente para ficar o mais distante possível desse pedaço de carne e desejos ambulante. Vamos lá! Ligue o telefone e mande a mensagem! Desista dessa vida de Madre Tereza! E, por favor, não fique esperando que agora vá aparecer outro melhor, porque não vai. Ambas sabemos que a raça deles não se difere como a nossa: nenhum presta ou prestará. Podem tentar esconder suas naturezas más, porém, serão desmascarados.

Conviva com a realidade de que há alguém lá fora, esperando por você. E que esse alguém não vai te encontrar assim tão cedo, talvez nunca — acredite-me. Talvez nem mesmo exista — o que, na verdade, é o que acontece no mundo real, princess! Aceite essa realidade, porque coração alimentado é coração iludido. E coração iludido é o que faz de você uma idiota.
Homens, retraí-vos! Não voltem seus olhos para nós com cobiça, desejo ou escárnio. Não nos subestimem! Já sofremos demais. Já guardamos demais.
E cá está nossa fórmula de livrarmos de vocês: Vão se ferrar, testosteronas à solta!


Beijundas de D. e A., aquelas que torcem pela liberdade de todas as criaturas lacrimosas desse mundo

terça-feira, 19 de outubro de 2010

De outra

Deslumbrante és. Alheia aos olhares fervorosos dos passantes, os quais imploram por mais de sua tez e menos de tecido. Brincas de sorrisos avessos, olhares certeiros e palavras dançantes. Rodas feito ciranda na palma da mão da platéia: uma frágil bailarina cristalizada.
Teu corpo, porém, já tens dono. A outra parte de ti que desperta a cobiça dilacerante na repugnante criatura da janela. Para a inveja de muitos, abocanha-te por inteiro e sem pudores. Já é tão teu que domina o coração pulsante e desnorteado de intenso prazer. Pois quisera ser, como a criatura da janela, dele e somente assim viver: diluída aos caprichos de teu senhor.
Ah, concupiscência! Nas tuas voltas infinitas ele se perde, distancia-se de tudo aquilo o que acreditas. Enlaça-o de tal forma a atar-se ao destino secreto dele. Clamas atenção e carícias contínuas, perdida em promessas frenéticas. Deixa-o descansar em teus seios e saborear-se de teu íntimo; tudo por um beijo verdadeiro.
Ah, delírio! Tuas pernas encontram-se a fim de seduzi-lo, separando-se para engrandecê-lo. Permites, graciosa, o bem estar infindável dele sobre si. Perturbas a mente já resignada e coloca-a sob tua proteção. Pois sabes o quanto aquilo te pertence. Traças os caminhos eróticos para trançá-lo de vez aos teus cabelos enrolados. Vibras como fogo sob suas mãos e o faz crer que apenas isto basta para ser possuída.
Esqueces, contudo, de que a criatura da janela também alça vôo. Também possui curvas voluptuosas como as tuas. Enreda-o tanto que deixa escapar um fio de teia, a qual a criatura poderá, um dia, utilizar como cilada. Cilada dela. Cilada inebriante. Talvez nem os alheios a escapem, se for necessário para ocupar-te o lugar.
À espreita, alerta e esperançosa: a criatura da janela escreve, deliciando-se com os gemidos da graciosa. Estes seriam os dela. Ele seria dela. E ela? Estaria perdida. Mas a criatura esperaria que ela encontrasse outro a esmo. Tanto que continuaria a escrever-lhe todos os dias perguntando: “Como estás?” E a cada vez que respondesse graciosa, tomaria a nota de paixão impressa no prazer da outra. Afinal, ele seria dela e de mais ninguém.
E a janela continuaria aberta.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Pela primeira vez

— Isso vai doer?
— Possivelmente.
— Mas você será delicado, certo?
— Olha, eu mentiria se dissesse que sim...
— Nossa! Então é assim que as coisas são?
— É porque eu preciso ser rápido, antes que alguém chegue e veja.
— Não precisa se preocupar quanto a isso. Temos todo o tempo necessário. Eu calculei.
— Calculou?! Quem calcula uma coisa dessas?!
— Ora, o que você vai fazer é simples, certo? Não precisa de tanta embromação, então cortamos os preparativos e partimos para a ação. E rápido, por favor, antes que eu mude de idéia.
— Não é tão simples assim! Além disso, se não tiver o que você chama de preparativo, não tem graça nenhuma!
— Já mudei de idéia.
— O QUÊ?! SEM ESSA! Você não me fez ficar nesse estado para depois dar fora. Que falta de consideração!
— Falta de consideração é você, que fica jogando na minha cara que nem vai se dar ao trabalho de pensar na minha dor!
— Mas você já sabia de todas as implicações do que estamos prestes a fazer. Aliás, foi você quem pediu.
— Posso despedir.
— Não, não pode.
— Posso, sim!
— Não pode, não!
— Não quero mais!
— Como assim, garota?! Eu não estou acreditando que estou no escuro, do jeito que estou, e NADA VAI ACONTECER! É brincadeira, certo?
— É sério, João. Sai fora!
— Tudo bem.
...
— AI, CARAMBA!
— Sem essa, Caroline! Não doeu tanto assim.
— Aham, tá bom! SUA VEZ!
— CACETE! QUE PORRA FOI ESSA, MULHER?!
— Foi o que você mereceu! Devia ter me avisado que ia puxar o papel com tudo! A cera já tinha secado!
— A minha também!

Feitos um para o outro

— O que está fazendo?
— Lendo.
...
— Sim, estou vendo isso. Mas o que é?! Sobre nossa prova de Biologia?
— Não, é Senhor dos Anéis. Estou no sexto livro.
— Pensei que fossem apenas três, porque são só três filmes.
— Não... Os livros são divididos em dois. Já comprei O Silmarillion para ter uma noção de como foi a Primeira Era.
— Ah...
— E terei o prazer de ler Contos Inacabados também, mas depois de O Hobbit.
— Sei...
...
— Então, sobre nossa prova de Biologia...
— O que tem ela?
— Você vai poder estudar comigo ou vai se reunir com aquele seu grupinho?
— Bem, eu tinha combinado com o pessoal, mas posso pedir que você estude conosco.
— Não sei se me daria bem no meio de tanta gente competente.
— Tolice.
...
— E sobre o fim de semana? Vai poder sair com a turma?
— Nem sabia que seus amigos tinham programado alguma coisa. Na verdade, não fazia idéia de que eles podiam sair com a prova de recuperação de Matemática marcada para a segunda-feira.
— Ah, é uma saída à toa. Um barzinho e talvez um filme na casa de Gean.
— Entendo.
...
— Então, você vai?— Olhe, terá uma maratona de Star Wars na casa de Carlos e eu já confirmei presença. Depois dos filmes, jogaremos uma partida de RPG de Harry Potter. Quer ir?
— Ah... Eu posso ver se dá...
— Ótimo! Empresto meu dado de 20 lados, se quiser. E devo avisar que a parte das Masmorras é perigosa.
— Ah, certo...
...
— Se você preferir sair domingo...
— Ah, não dá! Tenho de me reunir com os outros organizadores de um evento de anime, sabe? Pretendemos realizá-lo ainda este ano.
— Ah... Puxa, parece interessante...
— E é! Você devia ver com quantos otakus contamos. Além disso, parece que a sessão cosplay será um sucesso total!
— Uau...!
...
— Hoje é sexta.
— Sim, eu sei. É hoje que o Sheldon vai encontrar uma garota parecidíssima com ele no episódio reprisado.
— Como é?
— O Sheldon. Sheldon Cooper. The Big Bang Theory?!
— Ah, aquele seriado dos nerds...
— Exato! Particularmente, adorei o capítulo que eles encontram o Um Anel.
— Ah...
...
— Pelo jeito, não vai poder sair também, né? Por causa da reprise.
— Ah, posso sair... Tenho esse episódio no computador.
— Ótimo! E para onde vamos?
— Bem, eu ouvir dizer a Thaís vai oferecer o Xbox dela para um campeonato de Guitar Hero e The God of War. Você anima?
— Ah... Bom... Eu posso ver... Mas estava pensando mais em te levar na festa de Débora. Os pais dela estão para a Argentina e todo mundo vai para casa dela depois da aula.
— A casa da Débora é aquela com cercadinho branco?
— Sim!
— Cor rosa claro?
— Exato!
— Aquela casa que teve aquela festa que você vomitou de tanto beber e ficou dançando aquela dança sensual com todo mundo?
— Essa mesma! Mas não foi com todo mundo... Só alguns convidados tiveram essa sorte.
— Sim... Como só eu tive a sorte de te ajudar a voltar para casa.
...
— Hm... Você vai?
— Acho que vou passar essa, agradeço. Podemos combinar algo na segunda-feira, que tal?
— Tenho prova de recuperação de Matemática.
— Não pode ser depois da prova?
— Combinei de sair com o pessoal para beber...
— Ah...
— Quer ir?
— Bem... Posso ver...
...
— Hm... Está gostando do livro?
— É CLARO! É tão envolvente e excitante que começo a imaginar perfeitamente o semblante de cada personagem. Posso até ouvir as vozes élficas cantando histórias passadas!
— Legal!
— É maravilhoso!
— Imagino.
...
— Bem, tenho de ir. Minha aula favorita é no próximo horário e eu ainda nem me troquei.
— Ah, é mesmo... Temos aula de Educação Física...
— Graças a Deus! Não agüentava mais só trabalhar a mente.
— E eu preciso encontrar Talita para saber qual será nossa desculpa de hoje.
— Não vai fazer a aula outra vez?!
— Educação Física não dá nota vermelha e não me atrai. Não sei se você notou, mas tropeço nos meus próprios pés. Correr não é a melhor atividade para mim.
— Ah, mas é tão bom!
— Sim, imagino...
...
— Bem, nos vemos depois, namorada.
— Até, André.
— Oi, André!
— Oi, Talita! HÃ... Bonita... Roupa...
— Gostou mesmo? É o cosplay que farei no evento da Deyse. Trouxe só para mostrar!
— Legal...
— Senta aí, Tals. O André estava de saída e eu ainda preciso discutir algumas coisas sobre o RPG de amanhã.
— Até mais!
...
— Nossa, amiga, eu fico muito besta!
— Com o quê?
— Você e o André! Foram mesmo feitos um para o outro!
— Você nem imagina o quanto...

Um bom jeito de começar o dia

— Descobri por esses dias que a sua ex-namorada anda de caso com meu ex-namorado.
— ARGH! Desculpe, sujei o forro da mesa com o café. Deixa que depois do trabalho eu limpo. Enfim, qual era o assunto mesmo?
— Sua ex-namorada. E o meu ex-namorado.
— Ah... Gostei do que fez no cabelo, sabia? Estive pensando em cortar o meu essa semana... Não me deixe esquecer.
— Por que está desconversando? Acaso ainda gosta dela e evita saber dos relacionamentos estáveis em que se encontra?
— Porque não diz respeito à nossa vida. Agora, que tal aquele pão de queijo que você disse ter feito...?
— Viu?! Está querendo fugir do assunto outra vez!
— É você que sempre está voltando nele! Por favor, vamos nos concentrar no café da manhã.
— Isso tudo é amor reprimido. Eu simplesmente sabia que não devia ter começado um romance contigo com o término do namoro sendo tão recente.
— Não sei se você se lembra, mas está grávida. Esta é a razão.
— Então tudo se resume a isso para você?
— Não, não foi isso que quis dizer. Você sabe que não é assim que as coisas são.
— Eu não sei é de mais nada! Como você pode ainda gostar daquela mulher?!
— Gostar de quem?!
— Ela está muito feliz com o meu ex agora, não vai voltar para você.
— Ah, entendi... Então você está com ciúme do seu ex-namorado e fica colocando a culpa em mim.
— Está ficando louco? Nunca quis nada com ele, você sabe disso.
— A única coisa que sei é que quero terminar meu café sossegado. Isso é possível?
— Ah, entendi! Você está querendo confundir a minha cabeça só para não assumir que ainda pensa nela! Muito esperto, devo admitir.
— É, não é possível, pelo o que vejo. Deixe de paranóias e passa o pão de queijo, por favor?
— Não, não terá mais pão de queijo nenhum. Não até você me contar direitinho que história é essa de ainda ficar fantasiando voltas e mais voltas com sua ex.
— Nossa, qual é o seu problema, mulher?! Já não disse que não tem nada disso?! PASSE O PÃO DE QUEIJO!
— FALA PORQUE AINDA GOSTA DAQUELA OUTRA!
— NÃO SEI DO QUE ESTÁ FALANDO, LUNÁTICA! PASSA O PÃO DE QUEIJO!!
— SE CONTINUAR SE EMPANTURRANDO ASSIM, NEM EU VOU TE QUERER!
— O QUÊ?! Ah, esqueça. Coma tudo sozinha. Acho que você sempre quis isso: me enlouquecer para capturar os pães de queijo.
— Se essa é sua desculpa esfarrapada, já pode ir porque ela não pegou.
— Já ia do mesmo jeito. Nunca vi uma coisa dessas em plena manhã! Não posso nem tomar meu café sossegado que os hormônios da perturbada já atacam!
— Disse alguma coisa?
— Hã? Não. Já vou. Até mais tarde.
— Até.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Eventualidades

Taciturno pela ausência de bebida, o meu anfitrião pôs-se a nos cumprimentar com a cabeça, sendo seguido pela voz rouca de sua esposa. Ambos trajavam-se a rigor — as dele, cinza a calça e branca a camisa ocultada pelo outro acinzentado de seu paletó, enquanto as vestimentas dela se baseavam em um vestido rosado. Uniformizados em sincronia, aparentavam satisfação e indiscutível orgulho por receber-nos. O cabelo castanho que se balançava a pronúncia de nossos nomes estava ralo se comparado às fotos antigas, mostrando o desfecho da idade. Logo não os teria mais. A mulher tinha esse aspecto, porém, intacto, apresentando algumas mexas esbranquiçadas e marcas de expressão. Estas eram frias, ásperas e serenas, tanto que quando lhe encostei a um movimento comum de beijar as maçãs, senti cócegas. O sorriso não transpareceu em meus lábios ruborizados ao extremo pelo batom, menos em meus olhos anis, ocupados em gravar cada pormenor daquele reencontro. Não freqüentava a casa desde o nascimento do menor, primo meu de primeiro grau. Aquele estranho, portanto, fui conhecer apenas em Hogwarts, onde entrou um ano após minha instalação. Ainda desconheço o motivo de não os visitarmos mais.
Postei-me ao pé de mamãe, adornada de suas jóias mais valiosas, apimentadas pelo vestido negro que a cobria. Ela se comportava com tamanha graça que a invejei, deixando meus braços penderem ao lado do corpo e amassando o pano vermelho de meu vestido com os dedos. A luva alva impecável que me cobria as mãos até pouco acima do cotovelo, fez um barulho irritante de atrito, praticamente imperceptível. Mamãe bateu em minha mão direita, mais próxima de si; parei de amassar o vestido. Papai e meu irmão, alguns meses mais velho apenas, se posicionaram distantes de nós, mulheres, devido ao assunto que entretinha mamãe e a dona da casa. Falavam de jóias — revirei os olhos dando um suspiro. Pus-me a averiguar. O teto era circular, de tons pastéis quando não tinha figuras pintadas. E estas eram várias; havia sátiros marrons, beges e negros, alguns mais novos e outros mais velhos, dividiam espaço com os espíritos das árvores da floresta. Tinha uma tarja a ouro que me tirou o fôlego — divino. Outras tantas obras de arte se espalhavam pelos cantos, chamando-me as que retratavam o mito grego. Era uma paixão minha, das diversas jamais exteriorizadas.
Deslocamos três passos, deixando a entrada livre para os próximos convidados passarem. À minha direita, um espelho prateado nas bordas me convidou a olhá-lo. Era quadrado, ocupando a metade de cima da parede. Meus olhos se perderam em mim — descorada, cabelos de ébano organizados em uma trança grossa amarrada com um elástico enfeitado de pequenos diamantes, e estes se espalhavam pela trança. O vermelho do vestido me tornava mais graciosa, dependendo da opinião — àqueles que preferem cor, eu pareceria um cadáver. Mas belo, em plena juventude. Vi um sorriso admirado me escapar aos lábios e um rubor perpassar as bochechas; estava contente com o resultado da tarde que passei me arrumando para tal jantar. Entretanto, tudo fugiu ao entreouvir as duas senhoras conversando aos cochichos:
— Ela está deslumbrante. — excitou Lestrange a senhora Nott — Rabastan poderá cortejá-la sem mais suspeitas. — o meu reflexo empalideceu e o forcei a voltar ao normal.
— Acreditas piamente nisso? — quis saber a mamãe, arrancando um sorriso amarelado de Lestrange — Megaira não quer ouvir falar de casamento, segundo me consta, e seu filho também não se delicia com a idéia. Foi o que chegou a mim.
— Céus, como esse povo fala! — desconversou e eu vi inquietude em seu gesto de cabeça — Rabastan é um primor de menino, nunca desobedeceria ao pai. Seu irmão que deve se decidir depressa o que fazer ou outra família se interessará por ela. — voltei a fitar-me no espelho, fingindo não ver o olhar cobiçoso de minha, proibia-me de pensar nisso, sogra.
— Por enquanto, prefiro unir nossas casas. — contradisse mamãe, sua voz um tanto mais aguda que antes, indicando desconforto — Mas não mentirei, os Rosier têm certo interesse, assim como os Carrow. — não me prestei a continuar escutando aquela conversa azucrinante, saindo de perto das duas mulheres e me colocando ao pé da escada. Era mais interessante encarar a madeira do corrimão.

terça-feira, 9 de março de 2010

Amado

E mais uma vez estou aqui para falar do mesmo dilema: você. Afinal, qual é a sua? Você me vê como uma pessoa ou um animal indigno de qualquer manifesto sincero de amor? Eu gostaria de saber o que realmente passa pela sua cabeça, porque palavras tão bonitas não podem vir do pâncreas — na melhor das hipóteses. Se você tem um coração de verdade, mostre-me o que ele é capaz de fazer com tanto amor que tenho lhe oferecido há anos, diga-se de passagem. Não peço mais que sua compaixão, amizade e humanidade, pois há muito já não sei se o é. Humano, compreende? Afinal, suas palavras frias corroem as esperanças mais sublimes de menina, enquanto as cantadas resolutas não passam de mentiras e ciladas. Estas corrompem meu pensamento e tornam-me pecaminosa, uma verdadeira máquina de pedaços nulos e vontades ardentes. De que adianta me atormentar desse jeito? Ridicularizar-me? É este teu real propósito? Qual a grande piada ou prêmio nisso? Mais uma inocente que se deixa levar pelas garras sedutoras de um inimigo adorável? É disso que você precisa? Tornar-me uma donzela indefesa em tua história mirabolante? Atar-me a teus caprichos para nunca mais me aventurar? Usar de meu amor para me cegar e roubar o que tenho de mais casto? E ainda quer sair de toda essa confusão como o mocinho? Certo. As respostas não chegarão e eu jamais terei coragem de perguntar sua intenção. O circo já foi armado e eu, a palhaça, não sei mais fazer outra coisa no picadeiro. Reconheço minha fraqueza, mas faça o mesmo quando chegar sua vez. Reconheça sua hipocrisia, que tantas vezes me atingiu, e desumanidade, a qual já me acostumei. E nem vou mais me demorar, apenas narrar uma pequena dica a quem lê estas linhas:
Uma vez, há três anos, ocorreu-me a melhor das surpresas: encontrei-o. Era uma tarde, lembro-me agora, de inverno e as folhas demorariam a surgir. Entre os singelos e incomuns flocos de neve e as arapucas habituais dessa época, avistei o sujeito que jamais sairia de meus pensamentos. Ele era alvo como a estação e os cabelos negros e lisos davam-lhe toda a graça celestial, bem como seus olhos de avelã líquidos e borbulhantes. O ar me faltou aos pulmões e, num ímpeto de coragem e embaraço, me aproximei de tão ilustre figura.
Quanto mais próximo, mais bonito. Não havia outra explicação para os batimentos acelerados de meu coração, tampouco o suor congelado em minhas mãos enluvadas. De onde surgira tal beleza? Estaria eu a imaginar um rapaz tão deslumbrante? De fato, muitas coisas passavam pela minha mente como um beijo demorado e caloroso, a temperatura corporal ao máximo pelo toque, as manhãs apetitosas de futuros cafés da manhã, os bilhetes e sorrisos sutis de quem se está apaixonado e, surpreendi-me, um anel. Um anel simples, sem nomes, frases ou promessas. Apenas um símbolo de compromisso.
Aquilo me conteve. Que diabos de alfinetes! Estavam me instigando a acreditar nas imagens de meu cérebro! Não que fosse de todo ruim, mas o anel seria pedir demais de meros estranhos. Então, para me persuadir, o coração já quase saltando pela boca, o fugaz pensamento apareceu: “que não seja de compromisso”. Inventei uma desculpa perfeita para os novos passos que eu dava em sua direção, ainda aparvalhada com tamanha beleza e sonhos. Talvez, se não fôssemos um para o outro — embora não houvesse como negar —, pudéssemos ser amigos. O anel seria a confiança depositada no outro.
Neste misto de prazer, aflição e inocência, sentei-me ao seu lado. Minhas maçãs coraram instantaneamente e pude senti-lo estremecer. Oh, era um sinal! O calor de ambos os lados subiam e eu pensei que fosse ter uma síncope de alegria. Viramo-nos um para o outro ao mesmo tempo; outro sinal de interesse. Estávamos tão próximos que, sem perceber, sua mão quase tocava a minha, encostada ao banco. Foi quando ele disse:
“Tens namorado?”
“Não”, respondi mais ansiosa que o necessário.
“Tens marido?”
“Não”, continuei agitada, “Mas pretendo, um dia”, tive de completar. A imagem do anel estava diante dos meus olhos cobiçosos.
“Tens noivo?”
“Ainda não”, forcei-me a dizer, as bochechas mais coradas que antes.
“Ah”, completou com inteligência de quem analisa “Então, quanto custa uma noite?”
Uma vez, há três anos, ocorreu-me a melhor das surpresas: encontrei-o. Ele. O maior equívoco da minha vida. E foi bom, claro, pois nunca mais julguei errado um amor tolo e não correspondido.
Simplifiquei pra você? É. Para mim bastou.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Àquela hermosa

Ouvi-a uma vez.

Assim como os sinos apenas tocam e ecoam,
Fixou-se no âmago de minha mente,
Ávida por mais daqueles momentos,
Seu sorriso solene.

Ouvia-a uma vez.

A ausência física é superada,
Se esta pequena marcada apresenta-se
— Tão cândida essência, ó Glória!
De forma a desanuviar a preocupação.

Pequena luz de vida,
Que me incendeia o coração — ainda agora sinto sua voz aos ouvidos,
Não se esqueça do Cerne — tua Virtude frutífera
O qual alimenta minh’alma:

Lembra-te, Formosa, dos Paraísos.
Pois esses não o seriam
Não fossem seus Sorrisos.

Ó Amabilidade,
Encantai-me uma vez!
Pois assim a ouvi, Beleza — inerente ao meu Espírito.

Não sei mais perder-me de ti, Carinho meu,
Porque uma só vez bastou-me
Para achá-la em mim


— E ali permanecer.
— Ouvi-a uma vez.

Ode à Confiança

Como o horizonte, ó Tênue minha,
Quebranta-me!

Faça-me ar de universo,
Infinito de desilusões,
Vazio repleto de desesperanças.

Ó, Amada Sinfonia,
Dai-me destreza para acertar o acorde
De desamores e aflições constantes.

Ó, Dona de minha Lágrima,
Divida-me em duas metades assimétricas,
Sendo uma o Calor — maior de mim
E outra o Rancor dúbio que invade o Corpo — condena o Espírito

Mancha-me, Inigualável!
Devora-me de sorrisos rasos e intenções profundas.

Dor minha,
Entrelaça-me à sorte — dos destroços!

Senhora de Cinza,
Faça-me renascer de tuas vindas
E curar-me de tuas idas — fortaleza de poeira.


Flor de Ausência,
Sem abandono de mim, digo:
Conservo-te nobre, Rainha de minha vida

Pois os pedaços de Orgulho e Amor Próprio
Não os são mais por si mesmos
Perdidos de Tua presença negligente.

Inalterável Alma,
Ó Imutável Sentimento,
Engula-me por inteiro!

Porque este quebrantamento, Amada
És Mortal, Tênue Linha.

— Possuída, digo: Sou apenas o Vento,
Trancafiado na liberdade lúgubre de Tuas asas,
Fim meu.

Àquela pequena

Saias de cetim, fitas com laço, pó de imaginação.
A cor da borboleta de pano varia — vermelha, amarela e azul
A mistura do verde, laranja e branco — a íris da minha formosa

Menina, criança, onça
Braba, falha, pálida
Pura de qualquer desarmonia,
Acesa ao lúgubre som das asas.

Mimosa flor, de maçãs raras, redondas e coradas
Lança-se sobre o mundo como a brisa matutina,
Aventura-se entre os ramos, meu pequeno macaco, que
De tão pequeno,
Quebrou-se em mil — adeus casulo.

Garota, jovem, amante
Determinada, errada, transformada
Imaculada de qualquer velhice,
Desmaiada em prantos do alvorecer...

Traga-me a certeza do crepúsculo incessante,
Das rodas de cirandas passadas,
Dos batons postos à boca recheada
De sonhos, ilusões, conquistas.

Pois não é mais cetim seu corpo frágil,
Tampouco borboleta.
És pedra composta por cores e dores
Do acordar.

Ó candura de minh’alma!
Perca-se em mim, transfigurada!
Brisa de minha noite, que há pouco chegou,
Tornar-se-á primavera
De quinze pontos
No meu único centro.

Cura-me, amor, de minha nostalgia — transforma-me na alvorada de seu crepúsculo, ó noite!
Pois sou o tempo — senhor do teu cetim
Sou a voz do seu eu — perdido,
O futuro de tua íris — há muitas guardadas.