nada do que eu digo ou escrevo é passível de fazer sentido.

terça-feira, 9 de março de 2010

Amado

E mais uma vez estou aqui para falar do mesmo dilema: você. Afinal, qual é a sua? Você me vê como uma pessoa ou um animal indigno de qualquer manifesto sincero de amor? Eu gostaria de saber o que realmente passa pela sua cabeça, porque palavras tão bonitas não podem vir do pâncreas — na melhor das hipóteses. Se você tem um coração de verdade, mostre-me o que ele é capaz de fazer com tanto amor que tenho lhe oferecido há anos, diga-se de passagem. Não peço mais que sua compaixão, amizade e humanidade, pois há muito já não sei se o é. Humano, compreende? Afinal, suas palavras frias corroem as esperanças mais sublimes de menina, enquanto as cantadas resolutas não passam de mentiras e ciladas. Estas corrompem meu pensamento e tornam-me pecaminosa, uma verdadeira máquina de pedaços nulos e vontades ardentes. De que adianta me atormentar desse jeito? Ridicularizar-me? É este teu real propósito? Qual a grande piada ou prêmio nisso? Mais uma inocente que se deixa levar pelas garras sedutoras de um inimigo adorável? É disso que você precisa? Tornar-me uma donzela indefesa em tua história mirabolante? Atar-me a teus caprichos para nunca mais me aventurar? Usar de meu amor para me cegar e roubar o que tenho de mais casto? E ainda quer sair de toda essa confusão como o mocinho? Certo. As respostas não chegarão e eu jamais terei coragem de perguntar sua intenção. O circo já foi armado e eu, a palhaça, não sei mais fazer outra coisa no picadeiro. Reconheço minha fraqueza, mas faça o mesmo quando chegar sua vez. Reconheça sua hipocrisia, que tantas vezes me atingiu, e desumanidade, a qual já me acostumei. E nem vou mais me demorar, apenas narrar uma pequena dica a quem lê estas linhas:
Uma vez, há três anos, ocorreu-me a melhor das surpresas: encontrei-o. Era uma tarde, lembro-me agora, de inverno e as folhas demorariam a surgir. Entre os singelos e incomuns flocos de neve e as arapucas habituais dessa época, avistei o sujeito que jamais sairia de meus pensamentos. Ele era alvo como a estação e os cabelos negros e lisos davam-lhe toda a graça celestial, bem como seus olhos de avelã líquidos e borbulhantes. O ar me faltou aos pulmões e, num ímpeto de coragem e embaraço, me aproximei de tão ilustre figura.
Quanto mais próximo, mais bonito. Não havia outra explicação para os batimentos acelerados de meu coração, tampouco o suor congelado em minhas mãos enluvadas. De onde surgira tal beleza? Estaria eu a imaginar um rapaz tão deslumbrante? De fato, muitas coisas passavam pela minha mente como um beijo demorado e caloroso, a temperatura corporal ao máximo pelo toque, as manhãs apetitosas de futuros cafés da manhã, os bilhetes e sorrisos sutis de quem se está apaixonado e, surpreendi-me, um anel. Um anel simples, sem nomes, frases ou promessas. Apenas um símbolo de compromisso.
Aquilo me conteve. Que diabos de alfinetes! Estavam me instigando a acreditar nas imagens de meu cérebro! Não que fosse de todo ruim, mas o anel seria pedir demais de meros estranhos. Então, para me persuadir, o coração já quase saltando pela boca, o fugaz pensamento apareceu: “que não seja de compromisso”. Inventei uma desculpa perfeita para os novos passos que eu dava em sua direção, ainda aparvalhada com tamanha beleza e sonhos. Talvez, se não fôssemos um para o outro — embora não houvesse como negar —, pudéssemos ser amigos. O anel seria a confiança depositada no outro.
Neste misto de prazer, aflição e inocência, sentei-me ao seu lado. Minhas maçãs coraram instantaneamente e pude senti-lo estremecer. Oh, era um sinal! O calor de ambos os lados subiam e eu pensei que fosse ter uma síncope de alegria. Viramo-nos um para o outro ao mesmo tempo; outro sinal de interesse. Estávamos tão próximos que, sem perceber, sua mão quase tocava a minha, encostada ao banco. Foi quando ele disse:
“Tens namorado?”
“Não”, respondi mais ansiosa que o necessário.
“Tens marido?”
“Não”, continuei agitada, “Mas pretendo, um dia”, tive de completar. A imagem do anel estava diante dos meus olhos cobiçosos.
“Tens noivo?”
“Ainda não”, forcei-me a dizer, as bochechas mais coradas que antes.
“Ah”, completou com inteligência de quem analisa “Então, quanto custa uma noite?”
Uma vez, há três anos, ocorreu-me a melhor das surpresas: encontrei-o. Ele. O maior equívoco da minha vida. E foi bom, claro, pois nunca mais julguei errado um amor tolo e não correspondido.
Simplifiquei pra você? É. Para mim bastou.

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