nada do que eu digo ou escrevo é passível de fazer sentido.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Eventualidades

Taciturno pela ausência de bebida, o meu anfitrião pôs-se a nos cumprimentar com a cabeça, sendo seguido pela voz rouca de sua esposa. Ambos trajavam-se a rigor — as dele, cinza a calça e branca a camisa ocultada pelo outro acinzentado de seu paletó, enquanto as vestimentas dela se baseavam em um vestido rosado. Uniformizados em sincronia, aparentavam satisfação e indiscutível orgulho por receber-nos. O cabelo castanho que se balançava a pronúncia de nossos nomes estava ralo se comparado às fotos antigas, mostrando o desfecho da idade. Logo não os teria mais. A mulher tinha esse aspecto, porém, intacto, apresentando algumas mexas esbranquiçadas e marcas de expressão. Estas eram frias, ásperas e serenas, tanto que quando lhe encostei a um movimento comum de beijar as maçãs, senti cócegas. O sorriso não transpareceu em meus lábios ruborizados ao extremo pelo batom, menos em meus olhos anis, ocupados em gravar cada pormenor daquele reencontro. Não freqüentava a casa desde o nascimento do menor, primo meu de primeiro grau. Aquele estranho, portanto, fui conhecer apenas em Hogwarts, onde entrou um ano após minha instalação. Ainda desconheço o motivo de não os visitarmos mais.
Postei-me ao pé de mamãe, adornada de suas jóias mais valiosas, apimentadas pelo vestido negro que a cobria. Ela se comportava com tamanha graça que a invejei, deixando meus braços penderem ao lado do corpo e amassando o pano vermelho de meu vestido com os dedos. A luva alva impecável que me cobria as mãos até pouco acima do cotovelo, fez um barulho irritante de atrito, praticamente imperceptível. Mamãe bateu em minha mão direita, mais próxima de si; parei de amassar o vestido. Papai e meu irmão, alguns meses mais velho apenas, se posicionaram distantes de nós, mulheres, devido ao assunto que entretinha mamãe e a dona da casa. Falavam de jóias — revirei os olhos dando um suspiro. Pus-me a averiguar. O teto era circular, de tons pastéis quando não tinha figuras pintadas. E estas eram várias; havia sátiros marrons, beges e negros, alguns mais novos e outros mais velhos, dividiam espaço com os espíritos das árvores da floresta. Tinha uma tarja a ouro que me tirou o fôlego — divino. Outras tantas obras de arte se espalhavam pelos cantos, chamando-me as que retratavam o mito grego. Era uma paixão minha, das diversas jamais exteriorizadas.
Deslocamos três passos, deixando a entrada livre para os próximos convidados passarem. À minha direita, um espelho prateado nas bordas me convidou a olhá-lo. Era quadrado, ocupando a metade de cima da parede. Meus olhos se perderam em mim — descorada, cabelos de ébano organizados em uma trança grossa amarrada com um elástico enfeitado de pequenos diamantes, e estes se espalhavam pela trança. O vermelho do vestido me tornava mais graciosa, dependendo da opinião — àqueles que preferem cor, eu pareceria um cadáver. Mas belo, em plena juventude. Vi um sorriso admirado me escapar aos lábios e um rubor perpassar as bochechas; estava contente com o resultado da tarde que passei me arrumando para tal jantar. Entretanto, tudo fugiu ao entreouvir as duas senhoras conversando aos cochichos:
— Ela está deslumbrante. — excitou Lestrange a senhora Nott — Rabastan poderá cortejá-la sem mais suspeitas. — o meu reflexo empalideceu e o forcei a voltar ao normal.
— Acreditas piamente nisso? — quis saber a mamãe, arrancando um sorriso amarelado de Lestrange — Megaira não quer ouvir falar de casamento, segundo me consta, e seu filho também não se delicia com a idéia. Foi o que chegou a mim.
— Céus, como esse povo fala! — desconversou e eu vi inquietude em seu gesto de cabeça — Rabastan é um primor de menino, nunca desobedeceria ao pai. Seu irmão que deve se decidir depressa o que fazer ou outra família se interessará por ela. — voltei a fitar-me no espelho, fingindo não ver o olhar cobiçoso de minha, proibia-me de pensar nisso, sogra.
— Por enquanto, prefiro unir nossas casas. — contradisse mamãe, sua voz um tanto mais aguda que antes, indicando desconforto — Mas não mentirei, os Rosier têm certo interesse, assim como os Carrow. — não me prestei a continuar escutando aquela conversa azucrinante, saindo de perto das duas mulheres e me colocando ao pé da escada. Era mais interessante encarar a madeira do corrimão.

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