nada do que eu digo ou escrevo é passível de fazer sentido.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Eventualidades II

Meus olhos continuavam ávidos pela madeira lustrosa da escada, quando percebi um movimento perto de mim; o garoto Wilkes se aproximava. Já o vira tantas vezes, das quais jamais lhe dera atenção ou ele se permitiu conhecer, em pleno Salão Comunal de sua casa em Hogwarts. Observei minha mão se erguer sem ordem, sendo levada aos lábios dele que, após tocar-me, preencheu-se com um sorriso. Não me agradava tal liberdade, em especial, por um desconhecido. Porém, acostumada a atuar como boa donzela, retribui seu gesto, mostrando todos os dentes em um sorriso tão genuíno que ninguém desconfiaria do antigo desconforto. Este, aliás, expressou-se por minha falha — precisava controlar minha raiva como fazia com os demais sentimentos.
— Boa noite — levei meio segundo para lembrar o primeiro nome de Wilkes, afinal, não convivíamos tanto —, Ares. — por sorte, escutei várias vezes papai pronunciar aquele nome, porque o progenitor daquele em minha frente fazia grandes negócios com nossa família. Isto causava desentendimentos entre meu pai e eu, pois ele prezava amizades com influências certas. Ri-me disso, dando mais veracidade ao fato de agradar com a educação do jovem.
Observei o movimento de suas mãos ao bolso, mas seu próximo ato passou em branco frente aos meus olhos. Quando voltei a encarar seu rosto, lá estava o cigarro sendo tragado, seus traços de prazer por sentir a fumaça em seu pulmão. E aquele cheiro me deu água na boca. Elementos químicos mortais clamando por mim — meu coração pulsou mais forte pelo desejo. Meus lábios começaram a formigar de vontade de ter aquilo entre eles, aliviando-me do stress de ser futura noiva de alguém. Artérias, veias, vasos. Tudo reclamava o cigarro. Maldito vício. Maldito garoto; matava-me saber que não poderia me saciar enquanto meus pais estivessem presentes. Engoli todas aquelas emoções junto da saliva, mantendo-me imperturbável quanto ao sorriso. Continuava tão puramente verdadeira que me dava ânsia.
— Sim, é este nome mesmo. — minha voz era meiga, rouca como se já não a usasse. Estava preste a continuar a me socializar quando o vi. Neste momento, não contive nada; tudo se perdeu. A alegria, a cobiça, restando o stress. Eu deveria saber que ele viria logo — outro pulso forte em meu peito. Merda, começara. Eu devia estar lívida de raiva, frustração, agonia e receio. Limpei a garganta, retomando a atmosfera feliz que me munia outrora, mesmo falsa. Desta vez, porém, senti que minha máscara poderia ruir se não me concentrasse, e eu tinha de fazê-lo para o meu companheiro não reparar as repentinas mudanças em minha fisionomia. — Então... — quis retomar um assunto nunca principiado, recorrendo a todos os neurônios cabíveis para me ater ao teatro — ouvi Bellatrix certa vez dizer que você torcia por algum time... Cannons? — quis me dar um soco. Frivolidade como quadribol logo despertaria a desconfiança se ele fosse um bom observador, ou se estivesse me olhando — Acho Falcons bons. — pigarreei, lançando um olhar furtivo à escada. Ele descia despreocupado com um sorriso esquivo no rosto. Mais uma vez, o stress atingiu o apogeu — o que eu faria agora que Rabastan descia? Num outro olhar rápido, vi minha mãe encarando-nos, o brilho de fascínio lá. O medo bateu-me estampado em meu azul.

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