nada do que eu digo ou escrevo é passível de fazer sentido.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Eventualidades III

Quanto mais escadas sumiam sob a figura perturbadora de Rabastan, mais minha mãe devorava-me com o olhar. Este suplicava uma ação benemérita de minha parte, algo que o trouxesse definitivamente para mim. Não, repetia em minha mente, não ia me dar ao desplante de ir contra a minha vontade. Eu nem conseguia esconder mais o marasmo por nosso possível noivado — que se dependesse de mamãe, seria ali e agora. Era um inferno. Encarei Wilkes por poucos segundos, sem me preocupar em desfazer o semblante insatisfeito. Ia continuar a comentar asnices — fazer-me de boba sempre me ajudava em situações como aquela —, mas nada pude fazer quando fitei o recém-chegado; seus cabelos demasiado escuros caindo-lhe à face quando abaixava um pouco a cabeça em cumprimento, a franja a descrever um arco incompleto sobre os olhos negros e cálidos, a boca rosada e ligeiramente saliente. Sua pele não era tão alva quanto a minha, embora continuasse pálido como nos livros do ultra-romantismo — uma contração involuntária em meu estômago. Ele era o meu boneco de cera moribundo, deitado em seu caixão no meio da igreja deserta, as velas ao seu redor. Vivaz, porém, em seus atos, trouxe-me à realidade quando se aproximou esbanjando certa simpatia. Contraditório — outra convulsão constada em meu estômago.
Dirigiu-se a Wilkes primeiramente, notando a presença de Lestrange em seguida. Cessaram os movimentos em meu sistema digestório, principiando falhar o respiratório e cardíaco. Eu já estava estressada o suficiente, Rosier se sentir ameaçado e não se aproximar de mim apenas piorava tudo. Então, ele me surpreendeu. Beijou-me o rosto após desejar-me boa noite intimamente com o meu apelido — utilizado apenas por Alecto, deixe-me frisar. De fato, seus lábios encostaram os cantos dos meus. Meus olhos se arregalaram e eu senti o rubor e torpor se apossar de mim. O que ele estava pensando? Não podia me tratar assim, como uma mera garota que ele se interessava por brincar. Entrementes, aqueles mínimos toques fizeram meus lábios ferverem — talvez minha boca tenha aderido permanentemente o vermelho do batom, o qual eu podia ver na boca dele um pouco rosado, ou imaginar ver. Eu ia me dirigir a Evan, dizer o quanto fora indelicado mas o perdoaria. Diria ainda que ele poderia conseguir mais do que isso, se quisesse. Tudo bem, eu não ia dizer isso, e sequer tive a oportunidade de falar qualquer coisa. Mamãe já estava me tomando pela mão, afastando-me dele.
— Comporte-se, senhor Rosier! — ela alterou o tom de voz, a fúria declarada em suas expressões fortes. Vi alguns fios de seu cabelo se desprenderem do elegante coque que havia feito, tamanha quantidade de xingamentos que guardava para si — Espero que seu — sua boa se curvou em um sorriso sarcástico e maldoso, fulminando o rapaz com o olhar — descuido não se repita. — era mais que um aviso ou uma ordem — Minha Megaira — corrigiu-o pelo uso de apelidos — não é para você. — terminou cortante e incisiva. Estava resoluta a me afastar de Rosier, carregando-me para perto da porta, onde papai ainda estava. Ele pouco importou para toda a situação, concentrando-se no senhor Wilkes. Revirei os olhos, deixando-os vagar para a figura elegante de Evan. Minha boca ainda fervia.

Nenhum comentário: