nada do que eu digo ou escrevo é passível de fazer sentido.

terça-feira, 1 de março de 2011

De Amor

Acariciou-lhe a face pálida, colorida artificialmente pelas luzes rosadas do quarto. Tinha uma tez macia, exausta pelo labor anterior, silenciosa como um cálido renegado - anjo destronado. O castanho de sua íris - impresso nos olhos lacrimosos dela - estava escondido sob suas pálpebras delicadas de menino. Aquele o qual bricava de homem, sem ter as esperanças e sonhos pisoteados pelo mundo que ela - agora - decidira enfrentar, pousava feito uma pintura deliciosa entre os lençóis. Emaranhado ali, perdia-se profundamente no esquecimento da despedida. E ela se levantava.
Vestiu-se, calçou-se e lançou vôo. Para longe dali, para o mais distante possível de si. Não olhou para trás, tampouco forçou o remorso sumir. Durante toda a noite solitária, riu-se e divertiu-se da idéia estúpida de deixá-lo jogado às lembranças. Momentos saudosos perpassaram sua mente, os quais os sorrisos dele espantaram; uma casa, uma família, um anel. Momentos, coitada, que jamais foram reais - talvez num futuro distante, se enganava. Momentos tão perdidos por causa de sua decisão que o sofrimento ainda era pouco para fazê-la retroceder. Por isso não o podia perder, afinal era seu único elo com o abandonado.
Parte de si repetiu as juras feitas: " Terás aqui um ninho." "Viverás sempre comigo." "Não poderei mais esquecê-lo." E todas estas palavras ficaram, jogadas ao vento que acaraciava os lençóis e o menino recém acordado. Um pesadelo estremeceu sua alma e o despertou. A parte dela, que continuava ali, suspirou para porta aberta. Ele sabia que os caminhos eram diversos e as decisões infinitas, e que ela tivera a liberdade de querê-lo no último instante assim como seu coração decidiu se amarrar aos anseios dela.
E ali tivera a maior prova.

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