Analisando a cegueira do livro sob a perspectiva de Marx, na medida em que ela seja encarada como conseqüência do avanço desenfreado do capitalismo, o qual faz com que os homens se desvalorizem, massifiquem, tornando-os mercadorias; ela pode, assim, ser caracterizada como estranhamento (alienação). Segundo Marx, quanto mais os produtos são valorizados, em uma mesma proporção, os seres-humanos são desvalorizados.
Considerando a alienação como um processo de desumanização, pode-se dizer que ela está presente em sociedades divididas em hierarquias e dominações por meio de poder – rede produtiva que conta com mecanismos de força aceitos pela sociedade. Os cidadãos, por sua vez, só aceitam essas imposições se as considerarem verdades, como por exemplo, as leis. E ambos os fatores estão presentes nas sociedades capitalistas.
No livro, o poder pode ser concretizado no momento em que os personagens são colocados no manicômio, onde têm que ser submetidos às ordens de um alto-falante para regular seus comportamentos.
“Nesse instante ouviu-se uma voz forte e seca, de alguém, pelo tom, habituado a dar ordens. Vinha de um altifalante fixado por cima da porta por onde tinham entrado. A palavra Atenção foi pronunciada três vezes, depois a voz começou [...]”
(SARAMAGO, 1995:49)
A união das verdades e do poder causa nos personagens um certo tipo de cegueira social, já que não têm possibilidades de contestar os acontecimentos do mundo tanto interno – o manicômio no qual eles estão vivendo – quanto o externo. De tal forma, a obra faz uma crítica à falta de atuação política dos seres-humanos em relação às leis e aos mecanismos de poder. Por causa disso, o que antes era tido como regras e ética no mundo humano se torna totalmente sem valor, fazendo com que os personagens sejam animalizados, uma vez que o instinto de sobrevivência se sobrepõe a qualquer valor. “Desconfiados os cegos ficavam tensos, de pescoço estendido como se farejassem algo [...]” (SARAMAGO, 1995:49); “[...] eram trazidos em rebanho e esbarravam uns nos outros [...]” (SARAMAGO, 1995:72); “[...] se movimentavam de gatas, de cara rente ao chão como suínos e os soldados os viam como imbecis que se moviam diante dos seus olhos como caranguejos coxos, agitando as pinças trôpegas à procura da perna que lhes faltava [...]” (SARAMAGO, 1995:105).
Com essa perda de identidade humana, acontecem fatos que no mundo capitalista são tidos incomuns, como a não-distinção de classe social, sendo que todos são abrigados no mesmo lugar às mesmas condições de inferioridade – durante certo tempo, até os vilões se posicionarem ‘no poder’. E ao não dar nenhuma referência espaço-temporal na obra, a crítica de José Saramago pode estar sendo feita a qualquer sociedade na qual impera as contradições do capitalismo avançado ou não.
Com a perda de visão, não é possível criar impressões sobre alguma pessoa sem antes conversar com ela e isso faz com que pessoas diferentes, pertencentes a diversas classes sociais, se unam. Outra passagem notória à junção de pessoas distintas é aquela na qual um personagem racista encontra como confidente um negro, ou mesmo o rapaz que conversa pacificamente com uma moça nua ao seu lado, já que não pode vê-la.
Tampouco se pode criar um modo de produção, que seria determinante na organização dessa sociedade cega, pois a infra-estrutura atua de forma direta na superestrutura. No manicômio, jogadas ao acaso, as pessoas perderam a noção de capitalismo – não se esquecendo do dinheiro, mas das aparências, que vêm ser essenciais para a separação de classes. O rico, a prostituta, a criança estrábica, não seguem mais a cartilha discriminatória de suas antigas vidas, sendo forçados a modificar completamente seus valores. Nisso, o desenvolvimento e o momento de lucidez; “[...] a luta de classes e a trajetória básica da história humana são explicados pelo desenvolvimento das forças produtivas [...]” (BOTTOMORE, 1988:262).
Até o pequeno grupo que, em troca de alimentos, obrigavam orgias e as outras câmaras, que roubavam a comida para seu benefício, são novas tentativas de governo dentro da comunidade do livro, embora não tão distante do autoritarismo e pressão do antigo sistema; “[...] “as condições sob as quais forças produtivas bem definidas podem ser aplicadas são as condições do domínio de uma classe definida da sociedade” [...]” (BOTTOMORE, 1988:262). Porém, são brechas para a modificação da superestrutura, pois entram em contradição aos interesses comuns dos menos favorecidos; o conflito origina novas relações de produção – o movimento da História.
“[...] a estrutura econômica da sociedade, constituída de suas relações de produção, é a verdadeira base da sociedade: é o alicerce “sobre qual se ergue a superestrutura jurídica e política e ao qual correspondem formas definidas de consciência social”. Por outro lado, as relações de produção da sociedade “correspondem a uma determinada fase do desenvolvimento das suas forças produtivas materiais.” Dessa maneira, “o modo de produção da vida material condiciona o processo de vida social, política e espiritual em geral”. [...]”
(BOTTOMORE, 1988:260)
Enfim, o ambiente deteriorado do manicômio, a cegueira, a exclusão – dos cegos – perante as leis da sociedade capitalista e negação da humanidade, contribuem para o amadurecimento da esfera social, a superação do homem sobre as condições impostas a ele, as modificações. Isso porque, em suma, depende das escolhas dos indivíduos.
“[...] O materialismo histórico concebe uma hierarquia geral entre os domínios da vida social, mas tais relações devem ser analisadas não apenas em termos da sociedade em geral, mas também termos de cada tipo específico de formação socioeconômica. [...]”
(BOTTOMORE, 1988:260)
“[...] Se existem tendências inelutáveis na história, elas resultam das escolhas dos indivíduos, e não se afirmam a despeito de tais escolhas. [...]”
(BOTTOMORE, 1988:263)
Por isso, somente unidos e sãos que os cegos os deixam de ser, porque sobreviveram à adversidade e mudaram a superestrutura de sua esfera, prontos para voltarem ao capitalismo como cidadãos cientes e, por conseguinte, críticos.
Feito com a colaboração de Luís Carlos.

2 comentários:
muito bom
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