nada do que eu digo ou escrevo é passível de fazer sentido.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Japão

O Japão era uma sociedade agrária, que em relação às potências européias era uma semicolônia, devido ao seu período feudal não ter tantas inovações tecnológicas. Em 1868 a 1940, ocorreu o primeiro milagre econômico, chamado de era Meiji, e nessa época a nação passou a ser considerada um dos países mais ricos e industrializados do mundo graças ao seu grande avanço em 72 anos, uma transição consideravelmente rápida de país agrário para uma potência.
Considerado um país fechado e atrasado, de poucos recursos naturais e terra pouco agricultável por causa do tamanho – um conjunto de pequenas ilhas –, não foi alvo das potências européias no Imperialismo, o que contribuiu para o desenvolvimento de sua autonomia econômica. O desenvolvimento ocorreu na formação de uma classe burguesa que se uniu ao imperador autoritário, e essa classe advinha das famílias importantes no xogunato – feudalismo japonês –, agora zaibatsus. O governo investia em educação para a boa formação dos cidadãos japoneses, com o objetivo de criar mão-de-obra qualificada e infra-estruturas essenciais, como ferrovias e portos e começou a se relacionar com outros países, principiando uma abertura comercial que desenvolveria ainda mais a economia.
Porém, o país persistia na ausência de matéria-prima e fontes de energia, além de seu mercado consumidor interno estar saturado de produtos. Assim, outra medida política foi a expansão da zona de influência, a conquista de novos territórios no período do Imperialismo, conquistando a Coréia e a Ilha de Taiwan da China, e, após dez anos, as ilhas Sacalinas ao norte do país. Essas conquistas aproximaram-no da Alemanha nazista e da Itália fascista durante a Segunda Guerra Mundial, época que conseguiu a Manchúria e parte da Indochina e outras ilhas remanescentes, o que trouxe rivalidade com o império chinês e os Estados Unidos que também tinha interesse na região dominada.
Em 1941 o Japão ataca a base militar de Pearl Harbor e por conseqüência disso os EUA entram na 2ª Guerra Mundial. Desse período até 1945 – fim da guerra com as bombas atômicas jogadas no território japonês das cidades de Hiroshima e Nagasaki - milhares de japoneses foram mortos e cidades foram reduzidas a escombros; a economia entrou em colapso, acarretando o fim da Era Meiji. Tropas norte-americanas ocuparam o país arrasado e, durante a Guerra Fria, tentou garantir a não-recuperação militar e econômica nipônica.
Porém, a preocupação estadunidense com a expansão socialista pela Ásia por causa da Revolução Chinesa, fez com que o país financiasse na reconstrução do Japão, sem ameaçar o poder norte-americano. Acordos e mudanças de governo foram feitas, assim como na população e no exército – número controlado. Logo, os japoneses decidiram livrar-se da dependência política, garantindo a liberdade do governo para controlar o câmbio e os investimentos estrangeiros, e, em 1953, foi criado um programa de reconstrução industrial. Nesse programa, o iene foi desvalorizado e o governo deu subsídios para dar estímulo às exportações, privilegiou os grupos econômicos nacionais ao limitar investimentos de fora, e reorganização dos zaibatsus em novos conglomerados financeiros, industriais e comerciais. Isso tudo visando atender o mercado externo, permitiu o segundo milagre econômico japonês até 1970 com a implantação do Toyotismo na linha de produção para concorrer com empresas norte-americanas e européias – just-in-time, obsolescência rápida, relação horizontal entre fábricas.
A industria japonesa também deixou de ser têxtil, focalizando nos setores de bens de produção, como maquinário e matéria-prima para outras indústrias, e de bens de consumo duráveis, no caso do carro. Acumularam-se, então, superávits, tendo capital para investir ainda mais em mão-de-obra e abrindo filiais, principalmente, nos Tigres Asiáticos e, mais tarde, outras transnacionais por todo o mundo. Assim, formou-se o Bloco do Pacífico, que são países influenciados pela economia japonesa, envolvendo até a Nova Zelândia e a Austrália, sendo hoje o Japão o segundo país mais rico do globo.
Feito com a colaboração de Nana.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Fahrenheit 9/11


É fato que a globalização torna-se cada dia mais intensa e que, dentro deste contexto, os Estados Unidos são o país que mais exerce influência em outros e o que mais se expandiu nas últimas décadas. A partir disso, podemos citar uma característica marcante da segunda fase do expansionismo norte-americano: o terrorismo. E, quanto a isso, é inaceitável que não citemos o atentado terrorista às torres do World Trade Center e ao Pentágono em 11 de Setembro de 2001. Sem dúvida, um fato de extrema importância para a formação histórica mundial, não só porque o país é uma potência em todos os sentidos, mas também pelas incoerências surgidas após as investigações do incidente e das pessoas envolvidas – sejam elas suspeitas, culpadas ou possíveis vítimas – e é em cima disso que Michael Moore produziu seu documentário: Fahrenheit 9/11.
Segundo o filme, existem fatos que tornam duvidosa a vitória de George W. Bush contra Al Gore. As pesquisas de diversos canais indicavam este último como o vencedor. Porém, após uma derrota inacreditável na Flórida, o que aconteceu foi o contrário. Além disso, nos meses anteriores ao atentado, o presidente Bush foi visto, por diversas vezes, realizando atividades de lazer em suas “férias”, quando supostamente deveria estar trabalhando para fortalecer a segurança do país o qual acabara de ganhar o direito de governar.
Após o atentado, o filme mostra que as medidas tomadas pelo governo são um tanto quanto discutíveis. A primeira delas foi evacuar todos os familiares de Osama Bin Laden do país, ainda que eles fossem a ponte mais próxima entre o FBI e seu principal suspeito. Outra questão discutida é a relação entre a família do presidente – bem como de pessoas próximas a ela –, com membros de famílias importantes da Arábia Saudita, incluindo a de Osama. Aprofundando ainda mais as investigações acerca desse jogo de interesses, Moore nos conta, em seu documentário, qual pode ter sido o real motivo para as invasões do Afeganistão em 2001 e do Iraque em 2003: proteger os interesses das indústrias petrolíferas estadunidenses. Segundo ele, o objetivo ao invadir o Afeganistão era propiciar a construção de um oleoduto. Quanto ao Iraque, vale lembrar também, que o país não oferecia uma ameaça concreta aos Estados Unidos e que as armas de destruição em massa, que este último acusou o primeiro de possuir, nunca foram encontradas.
O enfoque passa a ser, então, a guerra no Iraque. As mortes de milhares de civis – dentre eles crianças, idosos e mulheres – é justificada pelo objetivo “principal” de capturar os líderes da Al Qaeda. Por outro lado, o governo iniciou uma intensa campanha de incentivo aos jovens para que se alistassem – e assim, fossem mandados imediatamente para a guerra, já que contrariamente ao imaginado, os norte-americanos receberam resistências. No início, dizia-se que as famílias receberiam auxílio, assim como os filhos ganhariam um salário. Contudo, após algum tempo de conflito, as promessas de ajudas foram esquecidas e as família têm como recompensa a morte de seus filhos.
Este não é o primeiro documentário feito para criticar a postura do governo dos Estados Unidos da América e de Bush, principalmente, frente ao atentado de 11 de setembro. Muitos foram feitos para mostrar, especificamente, evidências de que o ataque foi uma fraude criada pelo Estado. Será este o primeiro presidente a planejar um ataque contra o próprio povo? E a população? Por quanto tempo se manterá apática? “Faça alguma coisa.” – última frase de Fahrenheit 9/11.
Por Isabela Martins Pompeu.

Vôo 93

A primeira imagem do filme é, de certa forma, do bom uniforme norte-americano, o emblema dos Estados Unidos sendo exaltado pelo co-piloto quando este prende o adorno ao uniforme. O patriotismo não é evidenciado apenas nessa parte do filme, mas também quando os seqüestrados se unem e transmitem a idéia de que os norte-americanos são insuperáveis quando juntos, além de ser um povo condescendente à dor do outro.
Assim, o co-piloto dirige-se ao trabalho normalmente, passando o foco aos tripulantes da aeronave, aos tickets de viagem. Enfatiza-se, de início, os de aparência mulçumana – morenos, cabelos crespos e olha penetrante, como se escondesse algo por mais que seus modos fossem naturais. Logo, os demais passageiros, todos estadunidenses são mostrados singularmente, como se fossem os principais da história.
Enfim, o avião é tomado pelos árabes – que falam a língua própria deles – que carregavam explosivos e facas. Eles tentam não alarmar ninguém até chegarem à cabine do piloto – um deles estudara, superficialmente, como se pilotar um avião. Porém, com a aeronave sob controle, ameaçam e esfaqueiam um tripulante.
O restante, apavorado com o perigo, liga para seus familiares – um pai de três garotinhas liga para a esposa, pedindo que avisasse órgãos competentes de que o vôo fora seqüestrado – de uma altura considerável. Um desses que faz ligação, entra logo em contato com uma base da aeronáutica norte-americana, confirmando o boato de terem mais aviões seqüestrados durante o dia – onze de setembro – e que, dois deles, acertaram as Torres Gêmeas, provocando sua queda. Outras histórias angustiantes dos passageiros, como um marido que não atende as ligações da esposa nem quando esta já está ciente do provável destino, e uma filha que pressiona o psicológico da mãe, dizendo que não voltaria a vê-la, são mostradas para sensibilizar o telespectador e, assim, não permitir que as falhas do filme sejam evidentes – como o fato de se poder comunicar com o exterior da aeronave por celular a vários metros de altura, os seqüestradores permitirem tranqüilamente burburinhos entre as vítimas e, logo, um motim, além da falta de fiscalização do aeroporto quanto ao embarque de materiais explosivos ainda no início do filme, afora o quase descaso da aeronáutica para com as naves capturadas por terroristas.
Ao fim, mantendo-se informados dos planos terroristas – já haviam acertado o Pentágono e as Torres –, alguns homens unem-se contra os árabes, preocupados em brigar entre si – outra crítica sutil; os terroristas não têm organização, ademais, não passam de suicidas e fanáticos, anti-Estados Unidos. Embora consigam entrar na cabine ocupada pelo único mulçumano capaz de pilotar, este perde o controle da aeronave – já demonstrara falta de habilidade antes, dando guinadas no ar – que cai. Entretanto, nenhum destroço que, em situações normais, seriam encontrados e confirmados serem do avião despedaçado, foi mostrado. Havia apenas uma cratera gigantesca no provável local da colisão. Isso, fisicamente, seria impossível a menos que a temperatura fosse muito elevada – dado não revelado no filme. Em suma, não há evidências críveis.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Influência marxista em Ensaio sobre a cegueira


Analisando a cegueira do livro sob a perspectiva de Marx, na medida em que ela seja encarada como conseqüência do avanço desenfreado do capitalismo, o qual faz com que os homens se desvalorizem, massifiquem, tornando-os mercadorias; ela pode, assim, ser caracterizada como estranhamento (alienação). Segundo Marx, quanto mais os produtos são valorizados, em uma mesma proporção, os seres-humanos são desvalorizados.
Considerando a alienação como um processo de desumanização, pode-se dizer que ela está presente em sociedades divididas em hierarquias e dominações por meio de poder – rede produtiva que conta com mecanismos de força aceitos pela sociedade. Os cidadãos, por sua vez, só aceitam essas imposições se as considerarem verdades, como por exemplo, as leis. E ambos os fatores estão presentes nas sociedades capitalistas.
No livro, o poder pode ser concretizado no momento em que os personagens são colocados no manicômio, onde têm que ser submetidos às ordens de um alto-falante para regular seus comportamentos.

“Nesse instante ouviu-se uma voz forte e seca, de alguém, pelo tom, habituado a dar ordens. Vinha de um altifalante fixado por cima da porta por onde tinham entrado. A palavra Atenção foi pronunciada três vezes, depois a voz começou [...]”
(SARAMAGO, 1995:49)

A união das verdades e do poder causa nos personagens um certo tipo de cegueira social, já que não têm possibilidades de contestar os acontecimentos do mundo tanto interno – o manicômio no qual eles estão vivendo – quanto o externo. De tal forma, a obra faz uma crítica à falta de atuação política dos seres-humanos em relação às leis e aos mecanismos de poder. Por causa disso, o que antes era tido como regras e ética no mundo humano se torna totalmente sem valor, fazendo com que os personagens sejam animalizados, uma vez que o instinto de sobrevivência se sobrepõe a qualquer valor. “Desconfiados os cegos ficavam tensos, de pescoço estendido como se farejassem algo [...]” (SARAMAGO, 1995:49); “[...] eram trazidos em rebanho e esbarravam uns nos outros [...]” (SARAMAGO, 1995:72); “[...] se movimentavam de gatas, de cara rente ao chão como suínos e os soldados os viam como imbecis que se moviam diante dos seus olhos como caranguejos coxos, agitando as pinças trôpegas à procura da perna que lhes faltava [...]” (SARAMAGO, 1995:105).
Com essa perda de identidade humana, acontecem fatos que no mundo capitalista são tidos incomuns, como a não-distinção de classe social, sendo que todos são abrigados no mesmo lugar às mesmas condições de inferioridade – durante certo tempo, até os vilões se posicionarem ‘no poder’. E ao não dar nenhuma referência espaço-temporal na obra, a crítica de José Saramago pode estar sendo feita a qualquer sociedade na qual impera as contradições do capitalismo avançado ou não.
Com a perda de visão, não é possível criar impressões sobre alguma pessoa sem antes conversar com ela e isso faz com que pessoas diferentes, pertencentes a diversas classes sociais, se unam. Outra passagem notória à junção de pessoas distintas é aquela na qual um personagem racista encontra como confidente um negro, ou mesmo o rapaz que conversa pacificamente com uma moça nua ao seu lado, já que não pode vê-la.
Tampouco se pode criar um modo de produção, que seria determinante na organização dessa sociedade cega, pois a infra-estrutura atua de forma direta na superestrutura. No manicômio, jogadas ao acaso, as pessoas perderam a noção de capitalismo – não se esquecendo do dinheiro, mas das aparências, que vêm ser essenciais para a separação de classes. O rico, a prostituta, a criança estrábica, não seguem mais a cartilha discriminatória de suas antigas vidas, sendo forçados a modificar completamente seus valores. Nisso, o desenvolvimento e o momento de lucidez; “[...] a luta de classes e a trajetória básica da história humana são explicados pelo desenvolvimento das forças produtivas [...]” (BOTTOMORE, 1988:262).
Até o pequeno grupo que, em troca de alimentos, obrigavam orgias e as outras câmaras, que roubavam a comida para seu benefício, são novas tentativas de governo dentro da comunidade do livro, embora não tão distante do autoritarismo e pressão do antigo sistema; “[...] “as condições sob as quais forças produtivas bem definidas podem ser aplicadas são as condições do domínio de uma classe definida da sociedade” [...]” (BOTTOMORE, 1988:262). Porém, são brechas para a modificação da superestrutura, pois entram em contradição aos interesses comuns dos menos favorecidos; o conflito origina novas relações de produção – o movimento da História.

“[...] a estrutura econômica da sociedade, constituída de suas relações de produção, é a verdadeira base da sociedade: é o alicerce “sobre qual se ergue a superestrutura jurídica e política e ao qual correspondem formas definidas de consciência social”. Por outro lado, as relações de produção da sociedade “correspondem a uma determinada fase do desenvolvimento das suas forças produtivas materiais.” Dessa maneira, “o modo de produção da vida material condiciona o processo de vida social, política e espiritual em geral”. [...]”
(BOTTOMORE, 1988:260)

Enfim, o ambiente deteriorado do manicômio, a cegueira, a exclusão – dos cegos – perante as leis da sociedade capitalista e negação da humanidade, contribuem para o amadurecimento da esfera social, a superação do homem sobre as condições impostas a ele, as modificações. Isso porque, em suma, depende das escolhas dos indivíduos.

“[...] O materialismo histórico concebe uma hierarquia geral entre os domínios da vida social, mas tais relações devem ser analisadas não apenas em termos da sociedade em geral, mas também termos de cada tipo específico de formação socioeconômica. [...]”
(BOTTOMORE, 1988:260)
“[...] Se existem tendências inelutáveis na história, elas resultam das escolhas dos indivíduos, e não se afirmam a despeito de tais escolhas. [...]”
(BOTTOMORE, 1988:263)

Por isso, somente unidos e sãos que os cegos os deixam de ser, porque sobreviveram à adversidade e mudaram a superestrutura de sua esfera, prontos para voltarem ao capitalismo como cidadãos cientes e, por conseguinte, críticos.
Feito com a colaboração de Luís Carlos.