nada do que eu digo ou escrevo é passível de fazer sentido.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Nalahamed Trimble

“A música bate-estaca soa na mesma batida que o meu coração. Posso sentir o baixo batendo dentro do meu peito – tum tum. É difícil enxergar à minha volta com tantos corpos se contorcendo, ainda mais com a névoa de gelo seco e as luzes bruxuleantes do teto do clube, que criam uma atmosfera um tanto hostil.
Mas sei que ele está aqui. Posso senti-lo.”

Era fato como Meg Cabot sempre me compreendeu, escrevendo seus magníficos romances engraçados, suas personagens iguais a mim, os gostos musicais e literários e os homens perfeitos que todas as adolescentes normais ficariam loucas para ter. Porém, ela foi muito além dessa vez. Troque a música agitada por uma funérea, os corpos de movimentos epiléticos por gemidos chorosos e adicione um vazio enorme. Vazio tal que eu jamais conseguiria preencher, como um grande e profundo buraco na Terra, que a atravessa e destrói. Porque era exatamente assim que me sentia, dentro de um poço sem fundo, caindo, caindo, caindo, caindo... Quando a queda cessaria? O chão seria mortal? Teria eu a sorte de segui-lo?
O mais estranho de tudo era a negação. Afinal, não podia ser real – aquele corpo encaixotado, lacrado e, com certeza, deformado, não podia ser dele. Olhe, eu realmente tentava enfiar na minha cabeça que jamais teria o abraço, o calor, o beijo sem malícia, o sorriso de escárnio favorito, as tiradas inteligentes, as conversas sobre livros, a guitarra e o violão a soar pela casa, as explosões por causa do trabalho. Maldito trabalho, aliás. Foi por culpa de uma reunião nos Estados Unidos que o perdi. Para sempre. NÃO. Não era real. Tudo não passava de um pesadelo infame, o qual eu fui magoada mortalmente. Nunca sabemos separar o verdadeiro do sonho, claro. Aquela angústia passaria em breve, assim que eu acordasse. Ele mesmo estaria do meu lado, secando as lágrimas quentes que jorrariam dos meus olhos azuis. Era por isso, também, que eu não chorava agora, porque tinha consciência de que irreal fato não passaria disso.
“Querida, não quer nem se sentar?”, oh, pobre Sarabi. Não tinha razão para me sentar se, na verdade, eu estava deitada em minha cama, dormindo profundamente. Sorri para seu rosto manchado de rímel; como sou má por sonhar com uma pessoa tão boa chorando com tamanho desespero. E isso porque ainda não conseguia focalizar mamãe. Ela estaria arrasada, céus. Tal visão só pioraria o pesadelo e papai teria mais dificuldade para me acalmar. De qualquer forma, Sarabi soltou mais lágrimas por me ver sorrir, abraçando-me com força para me consolar. Mas, claro, não tinha razão para isso – eu já tinha entendido tudo. Por que não acordava logo?
“Sinto muito, meu amor. Você sabe disso, certo? Sua mãe e você podem contar comigo e com Mufasa. Ele mesmo está encarregado de cuidar do seu patrimônio.”, oh, coitada! Ela era apenas mais uma figura confusa na minha funesta imaginação. Doía-me vê-la tão arrasada. Outra mão, bem mais pesada e maior, acariciou minha cabeça. Aquilo já era demais.
“Não é hora para pensarmos em coisas materiais, pequenina.”, meu coração pulsou comprimido no peito. Não era o ruivo alto, de porte atlético e de olhar pesaroso que me chamava assim. Outro pulso ainda mais dolorido. Que diabos, Nala! Acorde!
“Mufasa, rápido! Dandara desmaiou!”, o quê?! Onde ela estava? Mamãe! Ela precisava de mim – eu teria de olhá-la. NÃO! Algo me dizia, no fundo de minha mente, que eu não devia encará-la, que o vazio e o buraco apenas inflamariam. Mais que depressa, Mufasa foi ajudar minha mãe em meu lugar, graças à minha covardia, deixando-me com Sarabi.
“Mamãe...”, aquela outra voz familiar me arrepiou. O que aquele menino estava fazendo no meu sonho, afinal?! Eu nunca gostei dele; um metido, inconveniente, tagarela, mesquinho e peste. Em suma, Simba. Até o som de taquara rachada dele me irritava. Virei-me ameaçadora para ele, porque agora que eu sonhava, podia demonstrar minha sincera emoção em vê-lo: náuseas.
“Simba, vá lá para fora. Nala não quer brincar.”, Sarabi aconselhou e eu esperei que seu filho ouvisse, mas não foi o que aconteceu. Ele tocou meu rosto, fazendo beiço e imitou uma voz de bebê ao pronunciar:
“Oh, a Nala, você precisa se divertir? Eu estou aqui.”, metido! Insuportável! Não brinque assim com meus sentimentos, nem em sonho!
“Simba, não me faça chamar seu pai.”, cortou a mãe dele, soltando-me por completo e, assim, me libertando. Aquele abraço não estava adiantando, pois o vazio não me abandonava. Caminhei os passos restantes até Simba e mostrei-lhe a língua. Voltei aos quatro anos de idade, céus. Eu tinha quatorze anos, qual era o meu problema? Simba apenas deu aquele seu sorriso torto que me deixava desconsertada. SAIA DO MEU SONHO! SAI, SAI, SAI! Já era bastante ruim sem ter de lidar com a frustração de tê-lo por perto. E ele se dizia meu amigo.
“Ah, não seja tão mau-humorada. Só porque seu pai morreu...”, calou-se. Pelo menos, foi o que meus ouvidos fizeram – tudo emudeceu. Sem ruído, sem visão, sem olfato, sem paladar. Sem vida. Era o fim. Eu queria vir à superfície, chegar ao ápice do sonho sem mais delongas, acabar com o pânico melancólico. Por que minha mente estava sendo tão vil? A boca rosada e cheia de Sim continuava a se movimentar, mostrando os dentes e a saliva enquanto abria e fechava em cada sílaba não captada por meu cérebro – quem ligava? O que importava se o meu pai estivesse morto? O meu melhor amigo? Tudo bem, eu tinha Simba como meu segundo melhor amigo, mas e daí? Ele era completamente diferente de papai, sendo um esnobe, ridículo... Ora, quem eu queria enganar. Aquela revolta com meu melhor amigo – vivo, argh – não me levaria a lugar algum. Por que diabos eu não voltava em mim?
“Nala? Está me ouvindo?”, ele quis saber, me tocando o rosto novamente. Finalmente, após a introspecção, encarei seus olhos amendoados. Era ruivo como o pai, com traços finos de europeu, quase como eu. Engraçado como o sol africano não fez efeito quando nos mudamos para cá, aos nove anos. Lembro-me de como nossos pais logo ficaram amigos, juntando-nos nas ceias de natalinas. Meu pai.
“NALA?!”, que inferno, garoto! Não grite! Todos vão nos olhar assim. Se bem que, na verdade, já estavam me olhando há tempos, desde o começo desse pesadelo, desde o telefonema, desde o noticiário, desde... meu pai! Não agüentei. Era como se fosse real, sério. Como se eu apenas me enganasse sobre o sonho para amenizar a dor. Só que eu não podia estar fazendo isso, porque não aconteceu! Não podia ter acontecido! Como eu ficaria nisso tudo?! Senti o peso das lágrimas em meu rosto, aquecendo-o devido ao seu grande número. Eram rápidas, porém, não eficazes. A mão de Simba tentava, inutilmente, secá-las.
“Tudo bem, olha... vamos desbravar o território?”, ele me chamava de pequenina. O papai, quer dizer. Mufasa queria apenas me tranqüilizar, fingir que estava tudo sob controle. E não estava. Não mesmo. “Por favor, Nala. Eu preciso de você. Quem mais poderia aturar meu ego?”, ora, Simba. Ele se achava mesmo o dono do universo, o grande leão, o rei das selvas. Não passava de um bebê, assim como eu. Éramos despreparados e vulneráveis. Nem nossos pais, figuras imponentes, não deixavam de ser humanos. Mortais. Que outra escolha eu tinha?
“Okay, eu vou com você.”, aquela voz rouca e fria era a minha? Não parecia em nada. Ele tomou minha mão e caminhamos para fora do local do velório.
Havia tantos túmulos à nossa volta, cada qual mais monumental que o outro, afinal, era a ala ‘rica’ do cemitério. Pensei em como o mundo capitalista era estratificado até quando a dor era envolvida. Simba pegou um pedaço de árvore caído, partindo-o e entregando a mim a parte maior. Olhei para o meu galho e em seguida para ele.
“Por hoje, eu deixo você ser a exploradora principal.”, disse ao empinar o nariz e, depois, se curvar para que eu tomasse a dianteira. Revirei os olhos, caminhando na frente e cutucando com a madeira em todas as pequenas rochas, as folhas secas pelo calor e alguns bichos mortos. Ficamos sem nos falar por vários minutos, concentrados em espantar idéias incômodas. Aquela sensação de sonho persistia; me apegava a ela com todas as forças do meu espírito. Mais de uma vez, tentei principiar um assunto qualquer, entretanto, minha rouquidão e falta de genuína vontade, me impediam. Engraçado como ele respeitava o meu silêncio, e isso fez com que eu me virasse para trás diversas vezes, certificando-me de que permanecia ao meu lado.
“Esperem!” olhamo-nos, sem saber quem poderia estar nos chamando, e viramo-nos. Alto, negro e elegante, embora afobado de tanto correr. Zazul, o faz-tudo de Mufasa. Sempre o achei um grande homem, e não só por ter dois metros de altura – o que o tornava um tanto desengonçado –, mas pela bondade disfarçada pela ironia peculiar. O que ele mais gostava de fazer, ou era obrigado, era nos seguir por aí. Controlava-nos, ou assim tentava, porque sempre conseguíamos escapar. Certa vez, Simba e eu o convencemos a dar uma volta pela savana (quando visitamos o Norte) e, enquanto atormentávamos sua mente com musicas, atrevimentos e caretas pelas costas, nós o deixamos no meio dos animais – um rinoceronte, para ser mais exata – e corremos para perto de um lugar escuro.
“Dandara está te esperando para...”, deu um pigarro, “... enterrá-lo.”, minha respiração falhou. Espiei Simba por cima da minha explosão de lágrimas, incapaz de segurar a pergunta por muito mais tempo.
“Então... não é só mais um pesadelo?”, não sei o que aconteceu em seguida. Tudo não passou de um borrão.
Minha Nala, do grupo Disney de Real Role Playing Game.

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