nada do que eu digo ou escrevo é passível de fazer sentido.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Independência mexicana

Avenida tal, horário a se pensar, México.


Não entendo, sinceramente. Durante toda a minha infância – não muito distante se você for pensar, afinal tenho meros quinze anos -, costumava observar as frustrações de papai sobre a escrivaninha de mogno, disposta junto de dez cadeiras acolchoadas na biblioteca, onde ele se reunia com os amigos fazendeiros. Atualmente, nenhum desses amigos nos visita mais; estão jogados nas calçadas, bêbados ou, quem sabe, pedindo uma ajuda de custo. E isso porque representavam a grande maioria conservadora.
Pelo que eu me lembre, a família Del Afonsiera possuía vastos hectares de plantação de milho mais ao norte. Entretanto, sua plantation perdeu o prestígio por causa da guerra civil – cuja não presenciei seu início. Quando nasci, o México já estava livre dos espanhóis –.
Essa guerra, entre conservadores monocultores e liberais, provocou a falência de muitos parentes meus, além dos ataques estrangeiros que insistiam em tentar ocupar nossas terras, implantando seu mercado e cultura. Para você ter uma idéia, diário, meu tio Alberto fora forçado a vender suas plantações de feijão para os norte-americanos para conseguir sanar dívidas bancárias. E, que eu saiba, o banco estava em situação precária, já que não se tinha tanto investimento como no passado.
Obviamente, papai culpa os ‘baderneiros’ pelo problema social instalado no país, assim como a instabilidade econômica. Na Igreja, que sempre freqüentamos, ele chegou a amaldiçoar alguns deles que se postavam à porta, com cartazes pedindo o afastamento do governo conservador repressor, alegando que voltaríamos aos tempos de colonização, cujos ricos eram minoria crioulla. Até parece que eles fariam algo diferente. Três Poderes; Legislativo, Executivo e Judiciário? A monarquia que papai prega, pelo menos, garante a ordem nessa sociedade rebelde, pois é um governo coeso, forte, impenetrável, capaz de impor respeito e autoridade. Bem, isso segundo o discurso infindável que papai dá, nessa praça precária.
Hm... estou vendo um rebuliço logo á frente; algumas pessoas com faixas negras, berrando alguma coisa ininteligível... estão vindo para cá... será...?

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Casa qualquer, horário improvável, México.


Era de se esperar que eu não voltasse a pegar neste caderno velho, de capa negra aveludada. Mas, quando o vi jogado em meio aos meus pertences juvenis, não pude resistir tocá-lo. Continua incompleto, desde a morte de papai, naquele fatídico encontro entre conservadores e liberais em praça pública. Eu devia ter me acostumado às brigas, aos tumultos, porém, vê-lo apedrejado e agir com naturalidade, já era pedir demais de uma mera adolescente de quinze anos.
Bem, de qualquer forma, os conflitos diretos e indiretos continuam, passados vinte anos. Ou seja, vejo essa batalha durante trinta e cinco anos seguidos. Uma vida inteira, sendo que a perdi depois da morte do papai. Mamãe adoeceu e ninguém em nossa família tinha dinheiro suficiente para tratá-la, então ela morreu, deixando-me com Juan, Carmen e Pedro, todos mais novos e despreparados para a vida de miséria – nossa fazenda estava com certos problemas financeiros. A morte dos meus pais foi o ápice da nossa queda -. Mas, tudo bem, sobrevivemos.
Ainda nessa semana, quando me mudei para o sul do país, vislumbrei ataques anticlericalistas; alguns cidadãos atacando, roubando, uma Igreja. Rebeldes, sem sombra de dúvida. Ligados ao Estado Liberal positivista que ameaça reger o meu México. Não sei o que papai diria sobre essa situação precária.
Bom, tenho de me recolher. Meu marido chegou.

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Qualquer canto de uma casa antiga, horário incerto, México.


Não acredito que encontrei isso no meio dos pertences de minha falecida avó. Ela era tão nova quando começou a escrever aqui, e retomou – durante algum tempo – seu trabalho depois de tantos anos sofridos de lutas. Acredito que se passaram cinqüenta anos de guerras civis, presenciadas por ela. Pelo menos em seus últimos meses de vida, viu o novo México, de educação laica – completamente desligada da Igreja – e poderes centrados em um estado liberalista, influenciado por estrangeiros. A vitória dos liberais. Não que eu seja contra, afinal, aderi muitos idéias deles, principalmente a descentralização do poder que era desigual – não que as condições de vida tenham mudado bruscamente de maneira igualitária -. De qualquer modo, a instabilidade política já não causa disputas sanguinárias.
Fui ontem à missa matinal e quase desmaiei ao ver que nela haviam caixas empilhadas. Dizem que se transformará em uma biblioteca pública, o que é aceitável, vendo o nível escolar dessa população sobrevivente dos tempos de precariedade. Embora seja uma afronta ao poder da Igreja, antes tão privilegiada. Fiquei abismada com a audácia dos governantes, sendo que alguns conservadores ainda espreitam por aí, procurando se estabelecer no poder, mesmo que seja difícil. A população consente com os liberais em muitos aspectos. Não que o nível de pobreza tenha abaixado, é a estabilidade que este novo governo passa. Pelo menos não temos ninguém sendo apedrejado por falar em praças, como meu bisavô.
Cinqüenta anos, um longo período. Ainda bem que acabou.

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