nada do que eu digo ou escrevo é passível de fazer sentido.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

De outra

Deslumbrante és. Alheia aos olhares fervorosos dos passantes, os quais imploram por mais de sua tez e menos de tecido. Brincas de sorrisos avessos, olhares certeiros e palavras dançantes. Rodas feito ciranda na palma da mão da platéia: uma frágil bailarina cristalizada.
Teu corpo, porém, já tens dono. A outra parte de ti que desperta a cobiça dilacerante na repugnante criatura da janela. Para a inveja de muitos, abocanha-te por inteiro e sem pudores. Já é tão teu que domina o coração pulsante e desnorteado de intenso prazer. Pois quisera ser, como a criatura da janela, dele e somente assim viver: diluída aos caprichos de teu senhor.
Ah, concupiscência! Nas tuas voltas infinitas ele se perde, distancia-se de tudo aquilo o que acreditas. Enlaça-o de tal forma a atar-se ao destino secreto dele. Clamas atenção e carícias contínuas, perdida em promessas frenéticas. Deixa-o descansar em teus seios e saborear-se de teu íntimo; tudo por um beijo verdadeiro.
Ah, delírio! Tuas pernas encontram-se a fim de seduzi-lo, separando-se para engrandecê-lo. Permites, graciosa, o bem estar infindável dele sobre si. Perturbas a mente já resignada e coloca-a sob tua proteção. Pois sabes o quanto aquilo te pertence. Traças os caminhos eróticos para trançá-lo de vez aos teus cabelos enrolados. Vibras como fogo sob suas mãos e o faz crer que apenas isto basta para ser possuída.
Esqueces, contudo, de que a criatura da janela também alça vôo. Também possui curvas voluptuosas como as tuas. Enreda-o tanto que deixa escapar um fio de teia, a qual a criatura poderá, um dia, utilizar como cilada. Cilada dela. Cilada inebriante. Talvez nem os alheios a escapem, se for necessário para ocupar-te o lugar.
À espreita, alerta e esperançosa: a criatura da janela escreve, deliciando-se com os gemidos da graciosa. Estes seriam os dela. Ele seria dela. E ela? Estaria perdida. Mas a criatura esperaria que ela encontrasse outro a esmo. Tanto que continuaria a escrever-lhe todos os dias perguntando: “Como estás?” E a cada vez que respondesse graciosa, tomaria a nota de paixão impressa no prazer da outra. Afinal, ele seria dela e de mais ninguém.
E a janela continuaria aberta.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Pela primeira vez

— Isso vai doer?
— Possivelmente.
— Mas você será delicado, certo?
— Olha, eu mentiria se dissesse que sim...
— Nossa! Então é assim que as coisas são?
— É porque eu preciso ser rápido, antes que alguém chegue e veja.
— Não precisa se preocupar quanto a isso. Temos todo o tempo necessário. Eu calculei.
— Calculou?! Quem calcula uma coisa dessas?!
— Ora, o que você vai fazer é simples, certo? Não precisa de tanta embromação, então cortamos os preparativos e partimos para a ação. E rápido, por favor, antes que eu mude de idéia.
— Não é tão simples assim! Além disso, se não tiver o que você chama de preparativo, não tem graça nenhuma!
— Já mudei de idéia.
— O QUÊ?! SEM ESSA! Você não me fez ficar nesse estado para depois dar fora. Que falta de consideração!
— Falta de consideração é você, que fica jogando na minha cara que nem vai se dar ao trabalho de pensar na minha dor!
— Mas você já sabia de todas as implicações do que estamos prestes a fazer. Aliás, foi você quem pediu.
— Posso despedir.
— Não, não pode.
— Posso, sim!
— Não pode, não!
— Não quero mais!
— Como assim, garota?! Eu não estou acreditando que estou no escuro, do jeito que estou, e NADA VAI ACONTECER! É brincadeira, certo?
— É sério, João. Sai fora!
— Tudo bem.
...
— AI, CARAMBA!
— Sem essa, Caroline! Não doeu tanto assim.
— Aham, tá bom! SUA VEZ!
— CACETE! QUE PORRA FOI ESSA, MULHER?!
— Foi o que você mereceu! Devia ter me avisado que ia puxar o papel com tudo! A cera já tinha secado!
— A minha também!

Feitos um para o outro

— O que está fazendo?
— Lendo.
...
— Sim, estou vendo isso. Mas o que é?! Sobre nossa prova de Biologia?
— Não, é Senhor dos Anéis. Estou no sexto livro.
— Pensei que fossem apenas três, porque são só três filmes.
— Não... Os livros são divididos em dois. Já comprei O Silmarillion para ter uma noção de como foi a Primeira Era.
— Ah...
— E terei o prazer de ler Contos Inacabados também, mas depois de O Hobbit.
— Sei...
...
— Então, sobre nossa prova de Biologia...
— O que tem ela?
— Você vai poder estudar comigo ou vai se reunir com aquele seu grupinho?
— Bem, eu tinha combinado com o pessoal, mas posso pedir que você estude conosco.
— Não sei se me daria bem no meio de tanta gente competente.
— Tolice.
...
— E sobre o fim de semana? Vai poder sair com a turma?
— Nem sabia que seus amigos tinham programado alguma coisa. Na verdade, não fazia idéia de que eles podiam sair com a prova de recuperação de Matemática marcada para a segunda-feira.
— Ah, é uma saída à toa. Um barzinho e talvez um filme na casa de Gean.
— Entendo.
...
— Então, você vai?— Olhe, terá uma maratona de Star Wars na casa de Carlos e eu já confirmei presença. Depois dos filmes, jogaremos uma partida de RPG de Harry Potter. Quer ir?
— Ah... Eu posso ver se dá...
— Ótimo! Empresto meu dado de 20 lados, se quiser. E devo avisar que a parte das Masmorras é perigosa.
— Ah, certo...
...
— Se você preferir sair domingo...
— Ah, não dá! Tenho de me reunir com os outros organizadores de um evento de anime, sabe? Pretendemos realizá-lo ainda este ano.
— Ah... Puxa, parece interessante...
— E é! Você devia ver com quantos otakus contamos. Além disso, parece que a sessão cosplay será um sucesso total!
— Uau...!
...
— Hoje é sexta.
— Sim, eu sei. É hoje que o Sheldon vai encontrar uma garota parecidíssima com ele no episódio reprisado.
— Como é?
— O Sheldon. Sheldon Cooper. The Big Bang Theory?!
— Ah, aquele seriado dos nerds...
— Exato! Particularmente, adorei o capítulo que eles encontram o Um Anel.
— Ah...
...
— Pelo jeito, não vai poder sair também, né? Por causa da reprise.
— Ah, posso sair... Tenho esse episódio no computador.
— Ótimo! E para onde vamos?
— Bem, eu ouvir dizer a Thaís vai oferecer o Xbox dela para um campeonato de Guitar Hero e The God of War. Você anima?
— Ah... Bom... Eu posso ver... Mas estava pensando mais em te levar na festa de Débora. Os pais dela estão para a Argentina e todo mundo vai para casa dela depois da aula.
— A casa da Débora é aquela com cercadinho branco?
— Sim!
— Cor rosa claro?
— Exato!
— Aquela casa que teve aquela festa que você vomitou de tanto beber e ficou dançando aquela dança sensual com todo mundo?
— Essa mesma! Mas não foi com todo mundo... Só alguns convidados tiveram essa sorte.
— Sim... Como só eu tive a sorte de te ajudar a voltar para casa.
...
— Hm... Você vai?
— Acho que vou passar essa, agradeço. Podemos combinar algo na segunda-feira, que tal?
— Tenho prova de recuperação de Matemática.
— Não pode ser depois da prova?
— Combinei de sair com o pessoal para beber...
— Ah...
— Quer ir?
— Bem... Posso ver...
...
— Hm... Está gostando do livro?
— É CLARO! É tão envolvente e excitante que começo a imaginar perfeitamente o semblante de cada personagem. Posso até ouvir as vozes élficas cantando histórias passadas!
— Legal!
— É maravilhoso!
— Imagino.
...
— Bem, tenho de ir. Minha aula favorita é no próximo horário e eu ainda nem me troquei.
— Ah, é mesmo... Temos aula de Educação Física...
— Graças a Deus! Não agüentava mais só trabalhar a mente.
— E eu preciso encontrar Talita para saber qual será nossa desculpa de hoje.
— Não vai fazer a aula outra vez?!
— Educação Física não dá nota vermelha e não me atrai. Não sei se você notou, mas tropeço nos meus próprios pés. Correr não é a melhor atividade para mim.
— Ah, mas é tão bom!
— Sim, imagino...
...
— Bem, nos vemos depois, namorada.
— Até, André.
— Oi, André!
— Oi, Talita! HÃ... Bonita... Roupa...
— Gostou mesmo? É o cosplay que farei no evento da Deyse. Trouxe só para mostrar!
— Legal...
— Senta aí, Tals. O André estava de saída e eu ainda preciso discutir algumas coisas sobre o RPG de amanhã.
— Até mais!
...
— Nossa, amiga, eu fico muito besta!
— Com o quê?
— Você e o André! Foram mesmo feitos um para o outro!
— Você nem imagina o quanto...

Um bom jeito de começar o dia

— Descobri por esses dias que a sua ex-namorada anda de caso com meu ex-namorado.
— ARGH! Desculpe, sujei o forro da mesa com o café. Deixa que depois do trabalho eu limpo. Enfim, qual era o assunto mesmo?
— Sua ex-namorada. E o meu ex-namorado.
— Ah... Gostei do que fez no cabelo, sabia? Estive pensando em cortar o meu essa semana... Não me deixe esquecer.
— Por que está desconversando? Acaso ainda gosta dela e evita saber dos relacionamentos estáveis em que se encontra?
— Porque não diz respeito à nossa vida. Agora, que tal aquele pão de queijo que você disse ter feito...?
— Viu?! Está querendo fugir do assunto outra vez!
— É você que sempre está voltando nele! Por favor, vamos nos concentrar no café da manhã.
— Isso tudo é amor reprimido. Eu simplesmente sabia que não devia ter começado um romance contigo com o término do namoro sendo tão recente.
— Não sei se você se lembra, mas está grávida. Esta é a razão.
— Então tudo se resume a isso para você?
— Não, não foi isso que quis dizer. Você sabe que não é assim que as coisas são.
— Eu não sei é de mais nada! Como você pode ainda gostar daquela mulher?!
— Gostar de quem?!
— Ela está muito feliz com o meu ex agora, não vai voltar para você.
— Ah, entendi... Então você está com ciúme do seu ex-namorado e fica colocando a culpa em mim.
— Está ficando louco? Nunca quis nada com ele, você sabe disso.
— A única coisa que sei é que quero terminar meu café sossegado. Isso é possível?
— Ah, entendi! Você está querendo confundir a minha cabeça só para não assumir que ainda pensa nela! Muito esperto, devo admitir.
— É, não é possível, pelo o que vejo. Deixe de paranóias e passa o pão de queijo, por favor?
— Não, não terá mais pão de queijo nenhum. Não até você me contar direitinho que história é essa de ainda ficar fantasiando voltas e mais voltas com sua ex.
— Nossa, qual é o seu problema, mulher?! Já não disse que não tem nada disso?! PASSE O PÃO DE QUEIJO!
— FALA PORQUE AINDA GOSTA DAQUELA OUTRA!
— NÃO SEI DO QUE ESTÁ FALANDO, LUNÁTICA! PASSA O PÃO DE QUEIJO!!
— SE CONTINUAR SE EMPANTURRANDO ASSIM, NEM EU VOU TE QUERER!
— O QUÊ?! Ah, esqueça. Coma tudo sozinha. Acho que você sempre quis isso: me enlouquecer para capturar os pães de queijo.
— Se essa é sua desculpa esfarrapada, já pode ir porque ela não pegou.
— Já ia do mesmo jeito. Nunca vi uma coisa dessas em plena manhã! Não posso nem tomar meu café sossegado que os hormônios da perturbada já atacam!
— Disse alguma coisa?
— Hã? Não. Já vou. Até mais tarde.
— Até.